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the dog days are over

| 10 de nov de 2009
as últimas semanas foram boas, apesar do silêncio por aqui. eu diria que estou vivendo os melhores dias desse fatídico ano de dois mil e nove, que parecia não ter mais fim; e as expectativas para o futuro são ainda maiores. eu não tenho vida de novela desde que era um garotinho que vivia se machucando na quina das mesas em salas de estar, e sempre achei muito difícil escrever sobre a felicidade sem cair naqueles clichês infantis e coloridos. vejo a tristeza como um sentimento nobre que consegue despertar no homem a sua sensibilidade e aflorar o seu lado mais poético. no entanto, não gostaria de viver novamente esses últimos meses que foram, sem sombra de dúvida, os piores que passei até hoje na minha mísera existência.
estou numa fase boa, otimista, positiva, dessas como a de um atacante que chuta torto, de canela, e a bola vai parar no fundo do gol. como quem deposita o seu último trocado numa aposta e ganha uma bolada milionária. depois de passar pouco mais de três meses na minha terra natal, aos cuidados da família, me recuperando de um trauma - que qualquer dia contarei com detalhes para o blog -, estou novamente de mudança para onde nunca deveria ter saído. mais maduro, com o ânimo renovado, emprego novo e ainda mais vontade de vencer na vida (embora essa expressão seja genuinamente cafona).
eu ainda tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aí parado - ainda que não me lembre se foi o dylan ou o raul seixas quem tenha dito isso antes de mim. pouco importa. eu continuo com o desejo de praticar mais esportes, de escrever e ler mais do que o habitual, de ganhar dinheiro e estudar. eu continuo com vontade de engolir cada pedacinho dessa cidade, cada semáforo, cada metro de asfalto. de poder viajar e conhecer outros lugares. de ter saudade de um tempo ainda não vivido. eu continuo sendo aquele mesmo garoto magrelo que um dia deixou a sua mãe chorando em uma rodoviária pra tentar a vida em outra cidade. ainda mais magrelo, é verdade, e com um turbilhão de sensações renovadas. mas aquele menino permanece de pé, sabendo ainda melhor quais são as suas qualidades e quais são os seus limites. e dessa vez um tornado não vai ser suficiente para derruba-lo.
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a (nem sempre) prolixa arte de escrever

| 22 de out de 2009
Assim, a primeira regra do bom estilo, uma regra que praticamente se basta sozinha, é que se tenha algo a dizer. Ah, sim, com isso se chega longe! Mas a negligência com relação a essa regra é um traço característico e fundamental dos filósofos e, em geral de todos os escritores teóricos na Alemanha, especialmente desde Fichte. Em tudo o que eles escrevem, percebe-se que pretendem parecer que têm algo a dizer, quando não têm coisa alguma. Essa maneira de escrever, introduzida pelos pseudofilósofos das universidades, pode ser observada facilmente e mesmo entre as mais destacadas celebridades literárias desta época. Ela é a mãe tanto do estilo forçado, vago, ambíguo e mesmo plurívoco, quanto do estilo prolixo, pesado, o style empesé, e também da torrente inútil de palavras e, finalmente, do ocultamento da mais deplorável pobreza de pensamento sob uma tagarelice infatigável, ensurdecedora, atordoante. No caso de tais estilos, uma pessoa pode ler por horas a fio sem capturar nenhum pensamento preciso e claramente exposto. Quem tem algo digno de menção a ser dito não precisa ocultá-lo em expressões cheias de preciosismos, em frases difíceis e alusões obscuras, mas pode se expressar de modo simples, claro e ingênuo, estando certo com isso de que suas palavras não perderão o efeito. Assim, quem precisa usar os artifícios mencionados antes revela sua pobreza de pensamentos, de espírito e de conhecimento.
Enquanto isso, a resignação alemã se acostumou a ler amontoados de palavras daquele tipo, página por página, sem saber direito o que o escritor realmente quer dizer. As pessoas acreditam que as coisas devem ser assim mesmo e não chegam a descobrir que ele escreve apenas por escrever. Em contrapartida, um bom escritor, rico em pensamentos, conquista de imediato entre seus leitores o crédito de ser alguém que, a sério, realmente tem algo a dizer quando se manifesta; é essa atitude que dá ao leitor esclarecido a paciência de segui-lo com atenção. Justamente porque tem algo a dizer, tal escritor se expressará sempre da maneira mais simples e precisa, uma vez que pretende despertar no leitor exatamente o pensamento que tem naquele momento, e nenhum outro.
Uma outra característica deles é a de evitarem, quando possível, todas as expressões precisas, de modo que possam sempre tirar a corda do pescoço, quando necessário. Assim, eles escolhem, em todos os casos, a expressão mais abstrata, enquanto as pessoas de talento escolhem a mais concreta porque ela expôe o assunto à claridade, que constitui a fonte de toda a evidência.
Pessoas de talento, por sua vez, dirigem-se realmente a nós em seus escritos, e por isso são capazes de nos animar e entreter: apenas elas combinam as palavras com plena consciência, com critério e intenção. Desse modo, sua exposição estabelece, com a que foi descrita antes, uma relação semelhante à de um quadro pintado com um que foi impresso com um molde. No caso, há uma intenção especial em cada palavra, assim como em cada pincelada; no outro, em compensação, tudo foi feito mecanicamente.
Quem escreve de modo afetado é como alguém que se enfeita para não ser confundido e misturado com o povo; um perigo que o gentleman não corre, mesmo usando o pior traje. Assim como se reconhece o plebeu por uma certa pompa no modo de se vestir e pelo jeito embonecado, a mente trivial é reconhecida pelo seu estilo afetado.
Quando um pensamento correto desponta numa cabeça, ele se esforça em direção à claridade e logo a alcança, para em seguida o que foi claramente pensado encontrar com facilidade uma expressão adequada. O que uma pessoa é capaz de pensar sempre se deixa expressar em palavras claras e compreensíveis, sem abiguidade. Aqueles que elaboram discursos difíceis, obscuros, dubitativos e ambíguos com certeza não sabem direito o que querem dizer, mas têm uma consciência nebulosa do assunto e lutam para chegar a formular um pensamento. No entanto, com frequência, essas pessoas querem esconder de si mesmas e dos outros o fato de que na verdade não têm nada a dizer.

- Arthur Schopenhauer
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aos treze

| 16 de out de 2009
naquele tempo eu tinha treze anos e sonhava em ser jogador de futebol. passava quase todos os finais de semana na casa da minha avó, batendo bola com alguns muleques magrelos que viviam pela região quebrando vidraças e sujando os pés de barro. eu ainda não tinha beijado nenhuma daquelas garotas que sentavam do meu lado na escola, mas acreditava que um dia iria encontrar a mulher da minha vida, e com ela iria me casar, ter filhos, comprar uma casa e fazer todas essas coisas que as pessoas faziam no tempo dos meus avós, quando o amor ainda não era uma coisa tão complicada. costumava sentir muita vergonha na frente das meninas. eu era engraçado, bobo e sentimental, mas bastava que alguém jogasse as pedras no tabuleiro aonde se brinca com o tal do joguinho do amor pra que eu ficasse vermelho como um tomate.
eu costumava ficar sentado em frente à varanda da casa da minha avó e era muito comum, durante esse tempo, que uma menina da mesma idade que a minha, parecida com a juliette lewis, se sentasse em uma pedra do outro lado da rua, segurando um desses diários cor de rosa em uma das mãos. a menina me olhava com o cantinho dos olhos e eu disfarçava correndo na direção da cozinha, com o coração batendo mais rápido, como uma bola prestes a explodir na minha garganta. esperava passar cinco minutos e voltava pra varanda, segurando um copo de coca gelado nas mãos. a menina permanecia sentada do mesmo jeito, com o seu vestidinho na altura dos joelhos, um caderno nas mãos e um olhar curioso que me causava frio na espinha. de noite eu ficava espiando pela janela da sala os movimentos no quintal da casa dela. algumas vezes ela aparecia por dois ou três minutos, segurando uma criança no colo, outras vezes eram horas perdidas na esperança de poder encontrar alguma coisa.
um dos rapazes magrelos da vizinhança veio me dizer que ela tinha escrito em seu diário o meu nome dentro de um coraçãozinho. e eu acho que na hora que ele me disse isso pode perceber que alguma coisa na altura do meu peito estava sacudindo num movimento estranho e barulhento. eu estava apaixonado pela primeira vez na minha vida e não sabia muito bem o motivo pra isso acontecer, mas sentia uma felicidade triste dentro de mim e uma vontade de gritar pro mundo inteiro que o meu nome estava escrito dentro de um coraçãozinho numa folha de papel.
um dia a república das garotas e garotos magrelos da vizinhança se reuniu e resolveu me colocar frente a frente com a menina. eles afastaram a gente pra longe do grupo e ficaram observando o que poderia acontecer, escondidos atrás de um portão. eu fiquei em pânico, morrendo de medo, sem saber o que fazer. parecia uma vítima nas mãos de um brutal assassino e não havia para onde fugir. eu via aquela menina parada na minha frente, com aquele sorriso apaixonado no rosto, e ficava repetindo pra mim mesmo - calma, rodrigo, você precisa manter a calma! e então, num desses momentos que se congelam para a posteridade, eu fechei os olhos e beijei aquela menina com a cara da juliette lewis, que eu mal sabia o nome, sem saber muito bem o que estava fazendo. por um instante eu abri um dos olhos e espiei que a república dos magrelos comemoravam aquele momento com gritinhos desenfreados. e enquanto movimentava a minha língua perdidamente dentro da boca dela, naquele momento pude sentir o sabor que tinha um beijo de verdade, que tanto havia ouvido falar dos garotos mais velhos e que só havia experimentado dentro da minha imaginação.
naquele dia eu fui dormir mais feliz.
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como um balão

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tal como um balão eu quero me sentir leve, voando no ar como se tivesse o peso de uma pluma. quero circular pelas mãos de algumas crianças, amarrado a uma corda, só pra sentir a brisa do cabelo delas roçando a minha pele de plástico. quero alcançar o mais alto que puder até atingir o inatingível e fazer com que o céu não seja o meu limite. tal como um balão eu quero ser colorido. quero ser verde, azul, amarelo, vermelho. quero ter todas as cores dentro de mim. e se for preciso explodir só pra conseguir arrancar uma dessas risadas histéricas que os bebês dão quando levam um susto, eu não vou medir esforços pra isso. tal como um balão eu quero ser observado à distância, como um pontinho vagando no horizonte. ora confundido com uma nave de outro planeta. ora confundido com o super homem. quero que as pessoas apontem os seus dedos para mim e se perguntem para onde eu estou indo. e que elas acompanhem a minha trajetória rumo ao infinito com os seus olhares curiosos. tal como um balão eu quero ser transparente. quero ser feito por um material que permita com que as outras pessoas enxerguem os meus verdadeiros sentidos. e se não for pedir demais quero soprar pra bem longe esse vazio que eu tenho dentro de mim. tal como um balão eu quero estar mais próximo das crianças, como um presente que se ganha dos pais em uma caminhada numa tarde de verão. quero estar nas festas de aniversário, nos casamentos, nas comemorações de fim de ano, como alguém que só se faz presente para deixar mais alegre os lugares por onde passa. tal como um balão eu quero deixar saudade nas pessoas quando resolver ir embora levado pelo vento.
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FILMES PARA VER ANTES DE MORRER

| 14 de out de 2009
DEIXE ELA ENTRAR (Låt den Rätte Komma In). 2008. Suécia. Dirigido por Tomas Alfredson. Com Kåre Hedebrant, Lina Leandersson. IMDB - 8.1. Trailer.

quando stephanie meyer lançou crepúsculo há quatro anos atrás, livro que se tornaria fenômeno de vendas entre o público jovem, se aproveitando do espaço deixado com o fim da saga de harry potter, uma onda vampiresca começaria a assombrar o mercado cultural pelos quatro cantos do mundo. os seres mais sombrios e sedutores da mitologia sairiam do ostracismo dos últimos anos para ganhar vida nas prateleiras de livrarias, videolocadoras, nos canais de televisão e em outros veículos de entretenimento. diversos livros sobre o assunto, de autores consagrados, ganhariam uma nova chance editorial; e um novo material vampiresco pode ser construído. no entanto, de tudo o que foi produzido dentro desse universo em particular, nada me surpreendeu e sensibilizou mais do que o filme sueco 'deixe ela entrar' (låt den rätte komma in), do diretor tomas alfredson.
logo de início somos apresentados ao garoto oskar (kåre hedebrant), um menino de doze anos, introspectivo e solitário, que convive com a humilhação e o desgosto de ser saco de pancadas dos outros rapazes de sua idade. oskar parece condenado à solidão até conhecer eli (lina leandersson), sua mais nova vizinha, uma menina de hábitos estranhos que aparenta ter a mesma idade que a dele e os mesmos problemas de sociabilização. o cenário gelado da suécia poderia ser só mais um palco para que duas pessoas sozinhas e carentes se cruzassem, como ocorre pelas esquinas do mundo inteiro, se não fosse pelo fato da menina em questão ser uma vampira.
conforme se torna evidente a solidão que os acompanha e suas proximidades, apesar da diferença de maturidade de alguém que possui doze anos e alguém que possui doze anos há muito tempo, oskar e eli constroem uma relação de uma beleza sentimental sem tamanho, como poucas vezes pude presenciar nas telas de um cinema. a carga histórica e esteriotipada a respeito do universo dos vampiros é respeitada sem exageros fantasiosos. eli permanece trancafiada dentro de seu quarto durante o dia, sem se permitir à exposição do sol, se alimenta exclusivamente de sangue humano e não invade ambientes sem receber a permissão para isso - como se refere o título do filme. mas são as sutilezas dos detalhes que fazem com que 'deixe ela entrar' se transforme numa pequena obra de arte que permanece trancafiada em nossas cabeças por algum tempo depois de sua exibição.
o filme é baseado no livro lançado na suécia há cinco anos atrás (um ano antes do fenômeno comercial norte americano), escrito por john ajvide lindqvist, que também assina o roteiro do longa. exibido pela primeira vez no brasil na última mostra de cinema de são paulo, arrancou quase sessenta prêmios internacionais pelos festivais por onde passou. no circuito brasileiro entrou em cena nesse mês, em algumas sessões em são paulo, curitiba e porto alegre.
'deixe ela entrar' será adaptado para hollywood com a direção de matt reeves (cloverfield), e o remake tem previsão para lançamento para o final de 2010. o cenário gelado da suécia dará lugar ao estado do colorado, nos estados unidos, e será ambientado nos anos oitenta, durante o governo reagan. o que nos mostra que a onda vampiresca que assombra o mundo do entretenimento só não é maior do que a falta de criatividade dos estúdios de hollywood, que destroem, ano após ano, preciosidades do cinema asiático e europeu pouco divulgadas entre o público mainstream, com os seus clichês com cheiro de moeda de caça níquel.
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a globalização e outras coisas criadas pela globo

| 13 de out de 2009
acordo. são nove e meia da manhã. levanto e caminho na direção do banheiro. abro a portinhola acima da pia e puxo um tubo de colgate pra escovar os dentes. lavo o rosto. saio do banheiro e pego o jornal na varanda de casa. 'barack obama ganha prêmio nobel da paz'. sento no sofá, e enquanto preparo o café, aperto o botão do meu computador esperando que o sistema operacional da microsoft se inicie. acesso dáblio dáblio dáblio ponto google ponto com e pesquiso sobre as condições climáticas dos próximos três dias, na minha cidade ao sul do brazil. previsão de sol e calor. depois disso acesso dáblio dáblio dáblio ponto hotmail ponto com e vejo cinco emails novos, dois deles com uma propaganda para comprar, respectivamente, um livro sobre as técnicas de sedução desenvolvidas por um cientista norte americano e os produtos em liquidação da loja virtual do ebay. é domingo e o sol invade a janela da sala aquecendo as minhas costas. resolvo trocar de roupa para dar uma caminhada. coloco um conjunto esportivo da nike, com um tênis testado sobre as mais terríveis condições para aguentar o tranco das minhas longas passadas. vou pra rua.
na sexta feira eu havia tomado uns drinks a mais na festa open bar que fui em uma balada que reuniu dois dos melhores dj's do brazil. e não havia nada melhor do que uma caminhada saudável de domingo para recuperar aquela ressaca de sábado. e enquanto acelero o passo em frente a algumas lojas, que estarão abertas até o meio dia, vendendo todas aquelas coisas que a gente sonha em ter e que só o dinheiro pode comprar, penso comigo - 'que bela anta foi o karl marx'! se não fosse a luta de classes ainda estaríamos por aí desenhando e resmungando dentro de cavernas. enquanto os macacos estavam comendo bananas pelas selvas paleolíticas os homens estavam fechando o pau atrás de fogo. e foi preciso que esse quebra-quebra atravessasse os séculos para que os nossos ancestrais peludões conseguissem fazer suas barbas com gillette. e muitas cabeças rolaram para que o homem conseguisse fazer coisas simples, como andar de avião num desses boeings que atravessam o mundo, levar a família pra passear dentro de um carro de qualquer cor ('desde que seja preto') ou trepar de camisinha com jontex.
moro num bairro próximo ao centro da cidade e com um pouco mais de uma hora de caminhada consigo chegar ao principal shopping center da região. é quase meio dia e os restaurantes da praça de alimentação estão movimentados. todos aqueles big macs gordurosos, e aqueles sundays, e os copões de coca cola, e os menus coloridos escritos em inglês, abrem o meu apetite e acabam levando aquela corrida saudável de domingo a um banquete condenado à indigestão. na mesa ao lado vejo uma criança brincando com bonequinhos da disney ganhos na compra de um lanche em algum restaurante fast food. ela aparenta ter um pouco mais de doze anos e está acima do peso. o rapaz que acompanha o menino é mais velho e usa uma camisa dos lakers com o nome de kobe bryant estampado nas costas. enquanto morde um pedaço de picles que insiste em sair de seu sanduíche, escuta música num mp3 player com um fone de ouvido, e ainda que eu esteja na mesa ao lado, consigo ouvir a batida frenética feita por um desses rappers que fazem a cabeça de meninos da classe média baixa do brazil que sonham em ser como os rapazes da periferia norte americana.
somos escravos. não conseguimos sequer olhar pra lua sem que uma bandeira azul e vermelha esteja fincada nas nossas direções. os estados unidos invadem a casa de bilhões de pessoas todos os dias com os seus filmes, e as suas músicas, e os seus seriados de televisão, e os seus produtos tecnológicos, e os seus padrões de beleza, e os seus reality shows, e os seus best sellers, e os seus websites, e transformam grande parte da população mundial em escravos da sua barbárie. estamos condenados a trabalhar em prol do american way of life até que, através do jeitinho brazileiro, nossos políticos roubem os nossos útimos trocados e nos matem de desgosto a cada vez que uma propaganda passar na televisão e nos sentirmos mais pobres do que já somos.

*idéia original postada nesse mesmo blog em jun/09 e desenvolvida para a minha coluna de domingo (11/10) no blog bixo de se7e cabeças.
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vampiros emocionais

| 8 de out de 2009
os vampiros estão de tocaia, mesmo agora, enquanto conversamos. nas ruas em plena luz do sol, sob o tremular azulado das lâmpadas fluorescentes do escritório e talvez até sob as luzes acolhedoras do lar. estão por toda parte, disfarçados em gente comum, até que suas necessidades internas os transformem em feras predadoras.
não é o nosso sangue que eles sugam; é a nossa energia emocional.
não se engane, não se trata dos aborrecimentos cotidianos que fervilham à sua volta como insetos ao redor da luz da varanda, facilmente enxotados com declarações afirmativas e firmes. são as autênticas criaturas das trevas. além de ter o poder de importunar, também nos hipnotizam para nos anestesiar a consciência com falsas promessas até sucumbirmos a seu encanto. os vampiros emocionais nos atraem e depois nos sugam.
a princípio, os vampiros emocionais parecem melhores que as pessoas comuns. são tão inteligentes, talentosos e encantadores como um conde romeno. gostamos deles, confiamos neles, esperamos mais deles do que das outras pessoas. esperamos mais, recebemos menos e, no fim das contas, saímos derrotados. nós os convidamos a entrar na nossa vida e quase sempre só percebemos o erro quando eles desaparecem na noite, deixando-nos exauridos, com dor na nuca, carteira vazia ou talvez coração partido. mesmo assim nos perguntamos: serão eles ou serei eu?
são eles. os vampiros emocionais.
você os conhece? já experimentou seu poder sombrio em sua vida?
já conheceu pessoas que pareciam maravilhosas à primeira vista, mas depois se revelaram o posto? já se deixou cegar por explosões brilhantes de charme que se acendiam e se apagavam como cartazes baratos de néon? já ouviu promessas sussurradas na calada da noite que foram esquecidas antes do amanhecer?
alguém já o sugou completamente?
os vampiros emocionais não se levantam de túmulos à noite. moram ali na esquina. são os vizinhos tão acolhedores e cordiais na sua presença, mas que espalham boatos pelas suas costas. os vampiros emocionais estão no time de vôlei; são os astros do time até que algo se volte contra eles. quando isso acontece, têm acessos de raiva que deixariam envergonhada uma criança de três anos. os vampiros emocionais trabalham nos escritórios; ocupam cargos altos e bem-remunerados, envolvem-se tanto em política e em intrigas mesquinhas que não têm tempo para trabalhar. os vampiros emocionais podem até dirigir uma empresa; são os chefes que fazem palestras sobre outorga de poderes e incentivos positivos, depois ameaçam demitir funcionários pelos mínimos erros.
os vampiros emocionais podem estar à espreita em sua própria família. pense no seu cunhado, o gênio que não pára em emprego algum. e aquela tia quase invisível que cuida de todo mundo, até que doenças esquisitas e debilitantes o obrigam a cuidar dela? será que precisamos falar daqueles parentes tão carinhosos e irritantes que estão sempre pedindo que você faça o que lhe agrada, na esperança de que você agrade a eles?
o vampiro pode compartilhar sua cama, ora como um parceiro amoroso, ora como um estranho frio e distante.

- do livro "vampiros emocionais - como lidar com pessoas que sugam você" de albert j. bernstein, ph.d.
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yes! we créu!

| 6 de out de 2009
na última sexta feira a cidade do rio de janeiro foi escolhida para ser sede das olimpíadas de 2016, e desde então vejo parte da população brasileira questionando a real importância do evento para o país. vejo muita gente dizendo que o nosso político é corrupto por natureza, e falando a respeito da quantidade de dinheiro que será desviado dos cofres públicos para a realização do sonho olímpico. existe uma postura clara daqueles que vão à praia de copacabana para comemorar a perspectiva de uma mudança, de uma nova chance para que o brasil se mostre um país civilizado e honesto; e das pessoas que simplesmente reclamam sem muita responsabilidade para tentar provocar a mudança que tanto sonham.
não sou a favor da maneira como a política é conduzida no brasil. muito pelo contrário. desde que a coroa portuguesa chegou ao nosso país que uma escola não é levantada sem que parte do dinheiro público não vá parar na conta bancária de um político qualquer. mas o que o povo brasileiro fez durante esses mais de quinhentos anos para tentar mudar alguma coisa? o político representa a imagem da população que o elege.
uma expressão que ouvi muito durante esses dias foi sobre a política do 'pão e circo', que se transformou num clichês esquerdista e burro - visto que a política circense da américa latina nunca tinha sequer sediado uma olimpíada. o esporte é um dos canais mais eficientes para fazer com que o mais pobre se aproxime do mais rico, e para aumentar a auto estima do seu povo (nelson rodrigues na década de cinquenta dizia que o brasileiro tinha 'complexo de vira-lata'). a final do superbowl é o evento anual mais assistido da televisão norte americana há décadas, apesar de estarem vivendo a maior crise econômica de sua história. a alemanha parou para receber e festejar a última copa do mundo de futebol, apesar da estagnação financeira e do desemprego dos últimos anos. e as olimpíadas, em especial, provou o quanto pode ser importante para uma mudança de postura social e de infraestrutura nas cidades que a sediam.
a espanha sempre foi tida como um dos países mais corruptos do velho continente, uma curiosa herança carregada entre os povos latinos, da velha roma que inventou esse chavão da política do 'pão e circo'. apesar disso barcelona se transformou numa das cidades mais modernas do mundo desde as olimpíadas de 92. a propaganda que o governo vende diz que a infraestrutura do rio de janeiro será melhorada consideravelmente, numa ação financeira que moverá mais de 25 bilhões de reais. e isso tudo será supervisionado pelo resto do mundo e pelos órgãos e comitês que controlam o esporte. essa aldeia global preparada para fiscalizar a realização do sonho olímpico, nunca havia ocorrido anteriormente para um projeto que alterasse a infraestrutura de uma grande cidade brasileira. o próprio panamericano teve uma verba irrisória comparada com o dinheiro que será investido em 2016. e dessa vez seremos supervisionados.
as olimpíadas de 2016 trarão uma revolução para o esporte nacional. antes de encerrar as transmissões num canal de televisão vi o tenista gustaven kuerten (aquele simpático manézinho da ilha que conquistou o mundo através do esporte e que hoje mantém uma instuição de apoio à crianças carentes) falar a respeito:
- fico imaginando a quantidade de crianças que essa hora estarão ingressando em clubes, sonhando em participar das olímpiadas no brasil. e na quantidade de empresas que irão investir na melhoria da nossa representação em cada modalidade. o esporte nacional ganhou uma nova chance.
é a hora da gente tentar mudar alguma coisa, ou continuar reclamando em frente aos nossos computadores deixando tudo como está. de qualquer forma - parabéns rio! yes! we créu!

*postado originalmente na minha coluna de domingo (04/10) no blog bixo de se7e cabeças.
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O Arquivo

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No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
João transformou-se num arquivo de metal.

- Victor Guiudice
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a parábola da parabólica

| 30 de set de 2009
"cristo morreu cedo demais. se tivesse vivido até a minha época, ele teria repudiado a sua doutrina." (nietzsche)

são oito horas da noite. joão chega em casa cansado do trabalho. há três dias chove sem parar e seus pés estão ensopados. no ônibus a caminho de casa ouviu duas senhoras comentando de que esse seria o fim dos tempos. joão não acredita nessa coisa de fim dos tempos; e enquanto pensa a respeito disso, caminha na direção do sofá com suas meias enxarcadas. sua mulher reclama na cozinha de que seu filho mais novo havia recebido um bilhete de advertência na escola pela terceira vez no ano. joão trabalha como segurança de uma empresa de grande porte na zona industrial da cidade. passa doze horas por dia em pé, segurando uma arma na altura da cintura e convivendo com o tédio, as dores na altura do tornozelo e o silêncio das horas que não passam. em treze anos de profissão nunca precisou usar a arma, a não ser uma vez quando ameaçou um bêbado que tentava pular o muro que divide a empresa da rua de asfalto. a última coisa que joão quer na sua vida é apertar o gatilho ou ter que conviver com as reclamações de seu filho mais novo ao chegar em casa cansado do trabalho.
com os pés sobre um puff cor de abóbora que ganhou de sua mulher no aniversário de quarenta e três anos, joão aperta o controle remoto para dar início à transmissão do jornal nacional, naquela caixa preta de vinte e nove polegadas cravada na estante de sua sala, comprada em doze prestações em uma loja do centro da cidade. joão ainda era um menino quando ouviu no rádio o presidente do brasil dizer que se um fato não havia sido noticiado no jornal nacional era porque ele não havia acontecido. e desde então, religiosamente, as suas atenções estão voltadas para a televisão naquele mesmo horário - para ouvir as notícias que a maior rede de televisão de seu país tinha preparado pra ele.
- boa noite - diz o apresentador do jornal que invade as telas de sessenta por cento de todos os televisores ligados no brasil naquele horário - o juíz gláucio de araújo da nona vara criminal de são paulo abriu ação criminal contra o fundador da igreja universal do reino de deus, edir macedo, e mais nove pessoas ligadas a ele por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
a câmera muda para sua mulher, também jornalista e companheira de bancada há mais de onze anos.
- segundo a denúncia da promotoria, edir macedo e os outros acusados desviaram dinheiro de doações de fiéis e se aproveitaram da isenção de impostos oferecidas à igrejas de qualquer culto, determinada pela constituição.
nesse momento quase todos os olhos e ouvidos do brasil estão voltados para a guerra midiática decretada pela quarta maior emissora do mundo à igreja neopentecostal que mais cresce na américa latina, e que controla a segunda grande emissora do país, sua maior concorrente - a rede record de televisão. a alta cúpula da igreja deveria estar naquele momento andando de um lado para o outro, em uma sala de reuniões aonde seria decidido qual seria o contra-ataque.
joão não acredita em deus desde que tinha dezessete anos, quando perdeu um irmão assassinado, mas sua mulher frequenta o templo da igreja universal do reino de deus construído há duas quadras de sua casa. há algum tempo boa parte de seu salário é direcionado para os sacos de recolhimento de ofertas nos cultos de domingo, e para o dízimo. joão lamenta profundamente aquelas horas de trabalho que não serviram para nada.
- se deus é o caminho, edir macedo é o pedágio.
e então ele muda de canal com aquela sensação de que se não bastasse o mundo inteiro ser enganado por aquela estórinha pra boi dormir contada na bíblia, o seu bolso pagava caro para sustentar aquelas mentiras todas. na rede record ele tem a triste sensação de que o dinheiro do suor de seu trabalho havia parado na conta bancária daquele apresentador, que sorria de terno e gravata tentando lhe vender uma pasta de dente vagabunda, usada por pessoas como ele que não tinham dinheiro para comprar pastas de dente indicadas pelos dentistas.

*postado originalmente na minha coluna de domingo (27/09) no blog bixo de se7e cabeças.
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estranho mundo - parte quatro

| 28 de set de 2009
perdeu alguma coisa? parte um - parte dois - parte três

"come mothers and fathers/ throughout the land/ and don't criticize/ what you can't understand/ your sons and your daughters are beyond your command/ your old road is/ rapidly agin'/ please get out of the new one/ if you can't lend your hand/ for the times they are a-changin'." (bob dylan, the times they are a-changin')


chamava-se oswald. e era o bandido mais procurado do país.
quando nasceu, no verão de mil novecentos e sessenta e três, os beatles haviam alcançado o topo das paradas britânicas pela primeira vez com o single please please me, e joão goulart assumia a presidência do governo brasileiro - cargo que perderia um ano depois por um golpe militar. foi também naquele ano que o presidente norte americano john f. kennedy havia sido assassinado à queima roupa por lee harvey oswald, enquanto circulava em seu automóvel ao lado do governador do texas, em frente à praça dealey, na cidade de dallas. embora não aja antecedentes que confirmem o fato, especula-se que a mãe do bandido mais procurado do país, uma professora particular de matemática, havia achado o assassino do presidente norte americano muito parecido com seu tio mais velho, morto por afogamento dois anos antes, e resolvera homenagea-lo colocando o seu nome no filho que estava para nascer.
o pai de oswald era um marinheiro português que havia atravessado o mundo deixando uma mulher grávida em cada porto que passava. embora estivesse completamente ausente da sua criação, o menino levava aonde quer que fosse uma carta enviada por ele, sua única referência documentada, que narrava suas aventuras de marujo em algumas ilhas perdidas do continente africano.
oswald passara uma infância solitária na companhia de histórias em quadrinhos e livros sobre a evolução das espécies. era um aluno exemplar e normalmente impressionava as outras pessoas com sua capacidade de memorização. aos dezesseis anos conhecera kurt wagner, o personagem noturno da série x-men, e começou a colecionar cada exemplar lançado pela marvel comics no brasil. não tinha amigos e a relação com sua mãe havia estremecido desde que ela inventara de casar com o dono de uma oficina mecânica. as outras pessoas evitavam o contato com oswald. havia alguma coisa de errada com o timbre da sua voz, na sua maneira de se vestir e na postura em que permanecia sentado na sala de aula. um dia, a caminho de casa, recebeu uma surra de um grupo de pessoas que o consideravam estranho demais para um convívio pacífico. a partir daquele momento desistiu da humanidade, e resolveu abandonar os super heróis das histórias em quadrinhos para se transformar num vilão.
no dia em que oswald saiu de casa para morar num quarto de pensão no centro da cidade, um outro atentado contra uma importante figura de estado havia acontecido. dessa vez um terrorista turco chamado mehmet ali agca - membro da frente popular para a liberação da palestina - quase matou o santo papa. oswald, a criança com um futuro promissor que anos antes havia vencido as olimpíadas estaduais de matemática e que tinha adquirido uma anti socialização graças a uma infância triste e solitária, passou o inverno de mil novecentos e oitenta e um arquitetando um plano maquiavélico para excluir todas as crianças da face da terra. com um sobretudo marrom, desses usados pelos grandes detetives e pelos jornalistas americanos da década de cinquenta, um chapéu na cabeça, uma máscara e uma pistola na mão, oswald invadia as principais escolas do país, sequestrava os estudantes e matava friamente um por um, até sumir misteriosamente como se tivesse adquirido os poderes que o seu personagem favorito das histórias em quadrinhos possuía.
e assim passaram-se os anos e oswald percorreu cada grande cidade brasileira aniquilando milhares de crianças, sem que o serviço de inteligência, a polícia ou o exército pudessem fazer alguma coisa. não havia rastros. não havia imagens da verdadeira identidade do assassino, que era chamado pela imprensa como junior, em referência ao personagem da música bad boy, composta pelo americano larry williams, e gravada pelos beatles no sexto álbum da banda. oswald demorava os exatos dois minutos e dezenove segundos que duram a música na gravação dos rapazes de liverpool para assassinar todas as suas vítimas, colocadas normalmente uma em frente a outra nos ginásios das escolas. e enquanto aniquilava aqueles estudantes, programava para que bad boy tocasse bem alto no sistema de som.
naquela manhã do dia dez de abril não havia nada que pudesse dar errado. iria invadir o portão da escola sem que percebessem e sequestraria um ou dois alunos, exigindo para que os demais se enfileiracem no ginásio. e então avistou aqueles dois repugnantes adolescentes jogados um sobre o outro no pátio do colégio e caminhou lentamente na direção deles, formando uma nuvem negra sobre os seus corpos. o terror estava pra começar.
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Guts

| 24 de set de 2009
Inspire.
Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.
Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.
Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.
Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.
Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.
Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.
Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.
Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.
Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.
As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….
Enquanto você desce as escadas, então - mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.
Esse é o espírito da escada.
O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.
Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.
Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.
Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.
Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.
Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.
Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.
Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.
Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.
Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.
O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.
Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.
Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.
O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.
Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.
O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.
No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.
Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.
Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.
O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.
Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.
Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.
Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.
A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.
Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.
Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.
Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.
Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.
Faço isso de novo, e de novo.
Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.
E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.
Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.
As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.
Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.
As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.
Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.
Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.
Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.
Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.
Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.
Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.
O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.
Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.
Deus proíba que meus pais vejam meu pau.
Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.
Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.
Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.
Você então vê contra o que eu lutava.
Se eu largo, sai tudo.
Se eu nado para a superfície, sai tudo.
Se eu não nadar, me afogo.
É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.
O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.
Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.
Algo sobre o qual nem os franceses falam.
Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú……
Mne eto nado kak zuby v zadnitse.
Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.
Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.
Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.
Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.
É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.
Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….
Precisava disso como precisaria de dentes no cú.
Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.
Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.
Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”
Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”
E então a menstruação da minha irmã atrasou.
Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.
Nunca.
Essa é a nossa cenoura invisível.
Você. Agora você pode respirar.
Eu ainda não.

- Chuck Palahniuk
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o fim é só o começo

| 23 de set de 2009
"se o meu médico me dissesse que eu teria apenas seis minutos para viver, eu não ficaria remoendo. eu digitaria um pouco mais rápido." (isaac asimov)

eu estou cercado por todos os cantos. é o fim. não posso dar mais nenhum passo. mcluhan tinha razão.
tudo começou com um simples preenchimento de cadastro. eu me lembro que aquilo prometia não tomar muito do meu tempo. e então o orkut começou a querer saber sobre quem eu era, o que eu fazia, do que eu gostava, aonde eu morava e quem eram os meus amigos. o orkut me interrogava e a partir daquele momento eu estava me transformando num arquivo. num doc. num ponto-alguma-coisa. com o tempo o negócio foi só piorando e eu comecei a me envolver de uma maneira ainda mais perigosa.
comecei a contar pra todo mundo qualquer coisa que acontecesse na minha vida, ou qualquer coisa que passasse pela minha cabeça. o twitter seguia cada passo que eu dava. um simples vou ali e já volto era suficiente. e ele ainda fazia questão de me passar relatórios sobre tudo o que se passava na vida das outras pessoas. o twitter era exigente e mesmo que eu criasse uma complexa teoria a respeito do funcionamento das coisas, que poderia me render a publicação de um livro ou a conquista de um prêmio internacional, ele só me dava um espaçozinho de cento e quarenta caracteres para explicar tudo com detalhes. e nenhuma vírgula a mais.
o negócio estava indo de mal a pior. eu estava sendo dominado pelas agá-te-te-pês. depois de um tempo deixei de enviar cartas pelo correio, e comecei a perder horas do meu dia reenviando para todos os contatos da minha conta de email milhares de correntes virtuais, mensagens de fé e esperança, piadas, teorias da conspiração, e mais um monte de besteira. deixei de comprar jornais em bancas de revista pra dar uma chance aos portais virtuais, que me enfiavam goela abaixo um milhão de informações através de imagens, manchetes, links e textos curtos. abandonei as lojas de disco e as videolocadoras por downloads ilegais. e se num determinado momento de descuido colocasse pra tocar a pasta de música da minha irmã mais nova, o lastfm não pensava duas vezes antes de sair por aí falando que eu era o mais novo emo do pedaço. e ainda aparecia um monte de gente estranha querendo ser meu amigo e revelando suas compatibilidades, que não tinham nada a ver com o meu universo.
chegou um momento em que eu não podia tirar uma mísera foto sem que o flickr não soubesse. se fosse num aniversário de casamento de um parente qualquer e filmasse um desses momentos descontraídos, aonde as pessoas bebem, dançam e falam à vontade, aquilo logo ia parar nas mãos do youtube. se fosse no cinema com a minha namorada só pra trocar uns beijinhos, tomar guaraná e comer pipoca, numa dessas comédias românticas despretenciosas, era a vez do flixster me colocar na parede até que eu revelasse a minha opinião sobre o filme. não podia trocar uma palavrinha com os meus amigos sem que o msn não quisesse salvar a conversa. e se estivesse lendo um livro qualquer, ou abandonasse de forma imperdoável um clássico na página quarenta e quatro, não demorava muito tempo para que o skoob saísse por aí avisando todo mundo.
eu estava preso àquela bolha uniforme e globalizada. e ainda teria que aprender a conviver com o myspace, o facebook e o multiply, com a microsoft, a apple e o google. o mundo aos poucos estava sendo dominado por uma onda social high tech e o preço por aquilo haveria de ser a nossa total liberdade.

*postado originalmente na minha coluna de domingo (20/09) no blog bixo de se7e cabeças.
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estranho mundo - parte três

| 21 de set de 2009
perdeu alguma coisa? parte um - parte dois
ele disse olá. patrick olhou pra aquela menina parada em cima dele e a primeira palavra que disse foi olá, ajeitando os óculos. naquele momento ele não se importaria se estivesse com todos os ossos do corpo quebrados. e era bem possível que estivesse. aquela menina poderia permanecer cantando assim durante horas no seu ouvido que patrick não iria reclamar. estava acostumado com a voz taquara rachada de sua mãe, e com aquelas perguntas todas que os professores faziam e ele não sabia responder, que o som que vinha de dentro daquela menina parecia sair de uma caixinha de música. patrick tinha acabado de ser atropelado por uma bicicleta e rogava pela alma de leonardo da vinci pela invenção daquele engenhoso veículo, que parecia ter sido feito única e exclusivamente para uni-lo àquela menina.
patrick fechou os olhos e com um sorriso no rosto começou a lembrar de todas as coisas boas que já haviam acontecido em sua vida, e não se lembrava de um momento tão prazeroso como aquele. lembrou de como gostava de espremer bolinhas de plástico e de ficar pulando com os pés descalços sobre a grama do parque da cidade. e de como era bom tomar banho de chuva em dias de verão e daquela sensação de ser abraçado por todo mundo quando fez um gol pelo time da escola pela primeira vez, após ser escalado por engano depois que o professor de educação física lhe confundiu com um outro rapaz. mas nada se comparava ao fato de estar grudado àquela menina, sentindo o suor escorrer pelo corpo de alguém que havia pedalado quatro quilômetros só pra poder esbarrar com ele.
quando patrick abriu os olhos tentando absorver o prazer daquele momento com todos os sentidos que haviam em seu frágil corpo, pode perceber que a menina havia parado de cantar. e foi nesse instante, que deve ter durado uns três ou quatro segundos até que ele se desse conta de que deveria falar alguma coisa, que o menino disse olá, ajeitando os óculos. eleanor não respondeu. ficou parada observando patrick tentando decifrá-lo como um enigma. talvez ele não passasse de um adolescente tentando perder a virgindade com a primeira mulher que esbarrasse de bicicleta com ele. ou talvez aquele menino fosse um presente de aniversário dado pelo destino, que há tanto tempo havia virado as costas para ela. e assim os dois permaneceram em silêncio, até que a sirene da escola explodisse avisando que a primeira aula do dia estava pra começar.
- eu me chamo eleanor. igual a eleanor rigby dos beatles, só que sem o rigby!
por um instante passou pela cabeça de patrick a possibilidade de sair correndo em direção a qualquer lugar. sentia o seu corpo tremendo diante daquela menina, como se ele tivesse quebrado os ossos da costela. mas não havia dor. estava apreensivo; nervoso. sentia uma necessidade absurda de falar alguma coisa, mas tinha medo que aquela menina pensasse que ele não passava de um completo idiota. queria uma dessas frases que impressionam. queria causar uma boa impressão. mas tinha vergonha de garotas.
- o meu nome é patrick.
foi a única coisa que conseguiu sair. aquela frase idiota. o meu nome é patrick! qualquer criança boboca de quatro anos conseguiria falar aquilo. e além disso o seu rosto estava vermelho, como se todo o sangue do corpo tivesse se movido para a cabeça. chegou a ficar com medo de que aquela queda tivesse lhe causado alguma espécie de traumatismo craniano ou qualquer coisa do tipo.
foi quando a menina disse com uma doçura na voz que muito provavelmente eternizaria aquele momento por noites de sono mal dormidas - eu sempre sonhei em conhecer algum garoto que se chamasse patrick - e sorriu. patrick poderia jurar que conseguia ouvir all you need is love tocando como se a música estivesse saindo de dentro da menina. e então, interrompendo aquele momento de ternura, uma nuvem negra pairou sobre o corpo daqueles dois jovens estudantes jogados um sobre o outro no pátio de um colégio da américa latina. patrick estava com medo.
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pense bem antes de usar!

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domingo (20/09) estreou a minha coluna no blog bicho de se7e cabeças. a idéia do blog surgiu do mineiro marcos vinícius, responsável pelo selo terceira margem, da editora multifoco, e levará sete autores a publicar sobre um determinado assunto cada dia da semana. eu estarei presente aos domingos na coluna 'chá de minhocas'. a idéia é que ao final de um ano o melhor do blog se transforme num livro.

a comunidade do orkut prazeres amélie poulain organizou um blog e já alcançou a marca de mil visitas em dezoito dias, com cinquenta seguidores e mais de cem comentários nos quarenta e cinco posts publicados até o momento. eu faço parte dessa história e gostaria de parabenizar a todos que colaboraram para esse resultado.
adicione a comunidade no seu perfil, acompanhe o blog e siga o nosso twitter. e se ainda não viu 'o fabuloso destino de amélie poulian', não perca mais tempo e vá correndo à locadora mais perto de sua casa. aproveite cada momento de prazer, por menor que seja, e se torne um amelístico você também! (:
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o começo do fim

| 17 de set de 2009
naquele tempo eu tinha dezessete anos. era um rapaz magrelo, cheio de espinhas na cara e alguns fiapos de cabelo nas pernas. ainda não sabia muito bem o que fazer com a vida e acreditava em todas aquelas histórias de amor que os poetas contavam nos livros. eu era um adolescente de classe média baixa que dormia nas aulas de matemática e virava as noites sonhando acordado em ser famoso. passava a maior parte do tempo sozinho e tinha vergonha das meninas.
eu tinha alguns livros espalhados pelo quarto e o meu guarda roupa se resumia a dois pares de calçados, um chinelo, dois casacos, algumas camisas desbotadas, quatro bermudas e uma calça jeans. no final de quase todas as manhãs eu costumava apagar as luzes enquanto ouvia dave matthews num aparelho de som que havia sobrevivido a duas enchentes. a música me levava pra um lugar distante, e embora eu não conseguisse entender muita coisa do que ela queria me dizer, eu tinha certeza que aquele cara estava do meu lado e que ele podia imaginar a porcaria que era ser adolescente num país de merda como o meu. ao meio dia aquele ritual era interrompido por duas batidas na porta do quarto que anunciavam que o almoço estava na mesa. o meu pai costumava fazer o sinal da cruz enquanto prestava atenção no noticiário local que passava na tevê, antes de engolir aquele arroz sem sal preparado pela minha mãe,e morder aquele bife com gosto de borracha.
aqueles dias se resumiam num profundo sentimento de espera. era sempre o tempo que estava a frente de todas as coisas, como se eu vivesse numa eterna introdução. eu queria me mudar de cidade pra ter uma vida independente, e começar a trabalhar pra poder comprar todas aquelas coisas que eu sempre quis ter. eu queria entrar num curso de jornalismo pra poder aprender a escrever tão bem quanto aqueles caras que eram os meus heróis e quem sabe, com sorte, poder publicar o meu primeiro romance ou realizar um sonho qualquer. mas o relógio insistia em me olhar com aquela pose de senhor das coisas e a dizer que eu deveria me adaptar à ordem dele ou estaria à margem da felicidade.
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o doce e encantado mundo da internet

| 11 de set de 2009
foi uma luta imperial contra o tempo nessas últimas horas. eu dizia, rodrigo, calma, você precisa manter a calma. ficar ansioso assim não vai te levar a lugar nenhum. mas o relógio parecia não correr na mesma direção que a minha. eu apertava aquele botão estúpido que atualiza as páginas da internet, e não havia nenhum sinal. o meu navegador insistia em colocar a culpa no servidor. e eu penso que essas grandes companhias deveriam inventar uma espécie de manual de sobrevivência para pessoas como eu, que sofrem inescrupulosamente com paralisias virtuais.

ando saindo de casa muito pouco nesses últimos tempos. apreendi uma espécie de fobia social, como se todas as pessoas do mundo tivessem sempre um bom motivo para descobrir e desenvolver suas tiranias perto de mim. inofensivas caminhadas em parques, barzinho com os amigos e até mesmo sorvetes em praças de alimentação só me aproximam ainda mais de uma solidão carente e pegajosa. vivo num eterno outono enquanto todas as outras pessoas do mundo parecem desfilar sorridentes com suas namoradas, e seus carros tunados, e suas contas bancárias, e seus empregos engravatados, em suas longas primaveras. como sempre fui um apaixonado por comunicação, e um dilacerador de palavras por ofício, acabei descobrindo na internet uma fórmula para me manter conectado à velha humanidade, de uma maneira segura (?).
espero sobreviver.
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nocaute

| 10 de set de 2009
quando você é nocauteado, a sensação não é ruim. na verdade é uma sensação boa. você não sente dor, só uma forte embriaguez. você não vê anjos nem estrelas e se sente numa névoa agradável. depois que Liston me acertou em Nevada, senti, por uns quatro ou cinco segundos, que na verdade todos no estádio estavam junto comigo no ringue, rodeavam-me como uma família. quando você é nocauteado, sente carinho por todos. você se sente amável para com todos. e tem vontade de se levantar e beijar todo mundo - homens e mulheres - e depois da luta com Liston alguém me disse que, do ringue, eu mandei um beijo para a multidão. eu não me lembro disso. mas acho que é verdade porque é assim que a gente se sente durante quatro ou cinco segundos depois de um nocaute.
mas aí esse sentimento agradável acaba. você se dá conta de onde está, do que está fazendo ali e do que acaba de acontecer com você. e o que se segue é uma dor, uma sensação nebulosa - não uma dor física - uma dor combinada com raiva; é uma dor do tipo o-que-é-que-as-pessoas-vão-pensar; uma dor de quem sente vergonha pela própria incompetência... e a única coisa que a gente quer é um alçapão no meio do ringue - um alçapão por onde pudesse cair e ir parar diretamente no vestiário, para não ter de sair do ringue e encarar aquelas pessoas. o pior de perder é ter que sair andando do ringue e encarar aquelas pessoas.

- Floyd Peterson
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uma prece para arturo bandini

| 9 de set de 2009
pus-me de joelhos, fechei os olhos e tentei pensar em palavras-de-oração. palavras-de-oração eram um tipo diferente de palavra. nunca percebi até aquele momento. então fiquei sabendo da diferença.
mas não havia palavras. eu precisava rezar, dizer algumas coisas; havia uma prece em mim como um ovo. mas não havia palavras.
certamente não aquelas velhas preces!
não o pai-nosso, com o pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, abençoado seja o vosso reino... eu não acreditava mais naquilo. não havia tal coisa como o céu.
nem o ato de contrição, sobre oh meu deus, estou pesaroso de todo o meu coração por tê-lo ofendido e detesto todos os meus pecados...
havia nietzsche, friedrich nietzsche.
tentei recorrer a ele.
rezei: - oh, caríssimo e adorado friedrich!
nada feito. parecia que eu era um homosseuxal.
tentei de novo.
- oh, caro sr. nietzsche.
pior. porque comecei a pensar nas fotos de nietzsche nos frontispícios de seus livros. elas o faziam parecer um aventureiro da corrida do ouro de 1849, com um bigode desalinhado, e eu detestava os aventureiros de 1849.
além do mais, nietzsche estava morto. estava morto havia muitos anos. era um escritor imortal e suas palavras ardiam através das páginas de seus livros, e fora uma grande influência moderna, mas apesar de tudo aquilo, estava morto e eu sabia disso.
tentei então spengler.
eu disse: - meu querido spengler.
horrível.
eu disse: - olá, como vai, spengler?
horrível.
eu disse: - escuta aqui, spengler!
pior ainda.
eu disse: - bem, oswald, como eu ia dizendo...
brrr. e ainda pior.
depois de ter pensado em tantas pessoas sem nenhum êxito, fiquei cansado de tudo aquilo e ia desistir quando subitamente tive uma boa idéia, e a idéia era que eu não rezasse para deus ou para os outros, mas para mim mesmo.
arturo, meu rapaz. meu querido arturo. parece que você sofre tanto e tão injustamente. mas você é corajoso, arturo. você me lembra de um valoroso guerreiro com as cicatrizes de um milhão de conquistas. que coragem a sua! quanta nobreza! quanta beleza! ah, arturo, como você é realmente bonito! eu o amo tanto, meu arturo, meu grande e poderoso deus. pode chorar agora, arturo. deixe suas lágrimas escorrerem, pois a sua é uma vida de luta, uma batalha amarga até o fim, e ninguém sabe disso a não ser você, ninguém exceto você, um belo guerreiro que combate sozinho, inflexível, um grande herói como o mundo jamais conheceu outro igual.

- o caminho de los angeles, de john fante.
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tempestade

| 8 de set de 2009
ontem pela madrugada um milhão de raios desabaram sobre o estado de santa catarina. um deles, uma ingrata força da natureza formada por essas moléculas que a gente tanto escuta falar nas aulas de química, atingiu em cheio um poste bem em frente ao prédio aonde moro, cortando a distribuição de energia no bairro inteiro. e assim, como se estivessemos novamente em séculos passados, vivendo longe das tecnologias e das luminárias incandescentes, eu peguei no sono. dez horas depois, ao acordar, apertei a tomada do meu quarto e, ao ouvir o clap daquele botão amarelo, vi que a lâmpada insistia em não respeitar o meu sinal. me senti impotente. sem luz. sem telefone. sem internet. sem fogão. sem chuveiro. sem eira nem beira. e assim permaneceu por mais um longo tempo, até que duas almas caridosas, dessas vestidas de macacão azul, crachá pendendo do lado esquerdo do peito, capacete amarelo pesando sobre a cabeça, pudessem encostar o caminhão da companhia de eletricidade ao lado do pobre poste machucado. como dois cirurgiões eles devolveram a normalidade às nossas vidas, iluminando as nossas casas com o frescor da modernidade.
o primeiro barulho que ouvi foi do microondas. como num estalo o meu cérebro associou que aquele barulhinho indicava que pedacinhos de eletricidade corriam pelos fios do apartamento até atingirem lentamente aquela máquina de aquecer comida. e através do som daquele pi, que soava como uma tecla de um piano de beethoven, ou como se estivesse saindo de uma flauta de bach, sussurrando aos nossos ouvidos indicando que a energia havia voltado, pude finalmente sair daquela apreensão toda, aprisionada dentro de horas entediantes que não passavam. foram segundos de extrema felicidade aqueles em que a velocidade da luz parecia acender o microondas em câmera lenta.
eu liguei o meu computador e os portais de notícia falavam a respeito de uma noite desagradável no estado de santa catarina. cidades decretando situação de emergência. mortes. ventos com mais de cento e vinte quilômetros por hora. casas destelhadas. árvores derrubadas. pessoas sendo levadas pelo vento. pessoas feridas. tornados. caos. eu era só mais um dentro de um estado prestes a explodir a qualquer instante. e apesar de tudo, aquilo que eu havia perdido, já havia ganho de volta. energia.
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a arte de falar pouco e não dizer quase nada

| 4 de set de 2009


não deixem de acompanhar @rodrigodasilva.
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FILMES PARA VER ANTES DE MORRER

| 3 de set de 2009
o fabuloso destino de amélie poulain (le fabuleux destin d'amélie poulain, 2001. dirigido por jean-pierre jeunet. com audrey tautou, mathieu kassovitz). IMDB 8.6/10. trailler.

durante muito tempo eu quis casar com a amélie poulain. às vezes ainda divido desse sonho. e até cometeria a loucura de dizer que a amélie poulain é um dos meus amores platônicos. não apenas porque ela é linda, encantadora, de fácil convivência, e poderia muito bem ter saído de um livro qualquer da clarice lispector. mas também porque o filme a respeito da vida dela se transformou em uma das grandes realizações do cinema mundial. se o fabuloso destino de amélie poulain fosse uma escola de samba e eu fosse um jurado de carnaval, seria muito difícil não dar nota dez para quesitos como roteiro, direção, fotografia, trilha sonora, e quase tudo aquilo que cerca esse que se tornou um dos grandes achados da cultura moderna.
o cinema francês sempre teve a fama de ser entediante, cansativo e chato demais pra quem pouco arriscou conhecer da sétima arte fora daquilo que é produzido em hollywood. mas quando jean-pierre jeunet, que já havia namorado com os blockbusters na filmagem de alien: a ressurreição, resolve nos contar a história de uma heroína defensora da sensibilidade, e que sente prazer com as coisas mais simples da vida, nós somos convidados a participar de uma viagem de total encantamento, através de um filme extremamente otimista e solidário.
tudo começa quando amélie poulain, uma jovem solitária interpretada por audrey tautou (um misto de bonequinha de luxo com traços de macabéa), encontra em seu apartamento um pequeno tesouro deixado há décadas por um antigo morador, que iria mudar pra sempre o rumo de sua vida - uma caixinha repleta de brinquedos. amélie se sente predestinada a encontrar o dono e devolver parte de sua infância, e aproveitaria a ocasião para abraçar a nobre missão de poder ajudar todas as pessoas que estivessem perto dela.
amélie é uma sonhadora. e sente prazer nas simples coisas da vida, como quando enfia a mão num saco de grãos, ou quebra a casquinha de açúcar de crème brûlée. amélie gosta de observar a expressão das outras pessoas numa sessão de cinema (mal poderia ela imaginar o quanto seu próprio filme seria um prato cheio para esse voyerismo puritano), e de jogar pedrinhas no lago de sua cidade natal só pra observar a trajetória que elas fazem na água. amélie gosta de imaginar a quantidade de pessoas que poderiam ter um orgasmo no exato momento em que estaria pensando a respeito disso. e de ajudar velhinhos a atravessar a rua enquanto narra com lirismo e delicadeza as coisas que estão acontecendo ao seu redor.
o fabuloso destino de amélie poulain nos remete a vários momentos ao qual mário quintana classificaria como aqueles que a gente 'pensa que está dizendo bobagens e está fazendo poesia'. é um filme que deve ser assistido com os cincos sentidos à flor da pele. como se fosse um manual de auto ajuda, sem os clichês, preparado pra fazer com que a gente se sinta melhor.
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cena de um filme que nada acontece

| 29 de ago de 2009
são quatro horas da madrugada. em uma cidade da américa latina, numa travessa qualquer, um gato cinzento lambe um prato de comida abandonado na boca de um lixo. é uma dessas noites perfumadas de estrelas e um letreiro digital cercado por mosquitos acusa a temperatura de dezesseis graus. a umidade relativa do ar está em sessenta e três por cento. e enquanto um carro em alta velocidade atravessa o semáforo vermelho atropelando uma poça d'água, dois mendigos dividem o último gole de uma cachaça vagabunda, e dormem abraçados em frente a fachada de um banco. a poucos metros um cachorro vira lata atravessa a rua, e observa à distância quatro lâmpadas coloridas serem apagadas em um bordel, indicando que o último cliente já havia ido embora. um vigia noturno dorme abraçado sobre um balcão de informações, ao lado de um rádio relógio ligado num programa de notícias sem ninguém pra ouvir. são quatro horas da madrugada. é cedo demais pra quem está acordando. e tarde demais pra quem está indo dormir.