aos treze

| 16 de out de 2009
naquele tempo eu tinha treze anos e sonhava em ser jogador de futebol. passava quase todos os finais de semana na casa da minha avó, batendo bola com alguns muleques magrelos que viviam pela região quebrando vidraças e sujando os pés de barro. eu ainda não tinha beijado nenhuma daquelas garotas que sentavam do meu lado na escola, mas acreditava que um dia iria encontrar a mulher da minha vida, e com ela iria me casar, ter filhos, comprar uma casa e fazer todas essas coisas que as pessoas faziam no tempo dos meus avós, quando o amor ainda não era uma coisa tão complicada. costumava sentir muita vergonha na frente das meninas. eu era engraçado, bobo e sentimental, mas bastava que alguém jogasse as pedras no tabuleiro aonde se brinca com o tal do joguinho do amor pra que eu ficasse vermelho como um tomate.
eu costumava ficar sentado em frente à varanda da casa da minha avó e era muito comum, durante esse tempo, que uma menina da mesma idade que a minha, parecida com a juliette lewis, se sentasse em uma pedra do outro lado da rua, segurando um desses diários cor de rosa em uma das mãos. a menina me olhava com o cantinho dos olhos e eu disfarçava correndo na direção da cozinha, com o coração batendo mais rápido, como uma bola prestes a explodir na minha garganta. esperava passar cinco minutos e voltava pra varanda, segurando um copo de coca gelado nas mãos. a menina permanecia sentada do mesmo jeito, com o seu vestidinho na altura dos joelhos, um caderno nas mãos e um olhar curioso que me causava frio na espinha. de noite eu ficava espiando pela janela da sala os movimentos no quintal da casa dela. algumas vezes ela aparecia por dois ou três minutos, segurando uma criança no colo, outras vezes eram horas perdidas na esperança de poder encontrar alguma coisa.
um dos rapazes magrelos da vizinhança veio me dizer que ela tinha escrito em seu diário o meu nome dentro de um coraçãozinho. e eu acho que na hora que ele me disse isso pode perceber que alguma coisa na altura do meu peito estava sacudindo num movimento estranho e barulhento. eu estava apaixonado pela primeira vez na minha vida e não sabia muito bem o motivo pra isso acontecer, mas sentia uma felicidade triste dentro de mim e uma vontade de gritar pro mundo inteiro que o meu nome estava escrito dentro de um coraçãozinho numa folha de papel.
um dia a república das garotas e garotos magrelos da vizinhança se reuniu e resolveu me colocar frente a frente com a menina. eles afastaram a gente pra longe do grupo e ficaram observando o que poderia acontecer, escondidos atrás de um portão. eu fiquei em pânico, morrendo de medo, sem saber o que fazer. parecia uma vítima nas mãos de um brutal assassino e não havia para onde fugir. eu via aquela menina parada na minha frente, com aquele sorriso apaixonado no rosto, e ficava repetindo pra mim mesmo - calma, rodrigo, você precisa manter a calma! e então, num desses momentos que se congelam para a posteridade, eu fechei os olhos e beijei aquela menina com a cara da juliette lewis, que eu mal sabia o nome, sem saber muito bem o que estava fazendo. por um instante eu abri um dos olhos e espiei que a república dos magrelos comemoravam aquele momento com gritinhos desenfreados. e enquanto movimentava a minha língua perdidamente dentro da boca dela, naquele momento pude sentir o sabor que tinha um beijo de verdade, que tanto havia ouvido falar dos garotos mais velhos e que só havia experimentado dentro da minha imaginação.
naquele dia eu fui dormir mais feliz.

2 comentários:

CAROL PERIOTTO disse...

lindo, lindo!!!

Ana Luiza disse...

Ameiiii... =)

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