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Mãos à Obra

| 30 de abr de 2009
nos últimos dias eu ando pensando seriamente em fazer um monte de coisas que eu sempre quis fazer.

- quero praticar mais esportes, voltar a jogar futebol com mais frequência, fazer academia, natação, tênis, corrida no parque
- quero voltar a escrever aquele livro que está entalado na minha cabeça
- quero conhecer bares, baladas, shoppings, ruas, pessoas, bebidas, passeios, lugares
- quero escrever mais
- quero dançar salsa pra me sentir um pouco mais latino americano
- quero viajar mais
- quero terminar o ingles e o espanhol
- quero começar o jornalismo
- quero falar menos e escrever mais
- quero ler mais e ver mais filmes e ouvir mais músicas
- quero viver mais do que 24 horas por dia
- quero comer coisas mais saudáveis
- quero preocupar menos a minha mãe
- quero economizar
- quero tirar a carteira de motorista e comprar um renault twingo
- quero passar mais tempo perto das pessoas que amo
- quer escrever mais
- quero tocar mais violão
- quero entrar num curso de caricatura
- quero tomar menos refrigerante
- quero ficar menos tempo em frente a um computador
- quero viver mais
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Tratado sobre a vida e outras estórias

| 28 de abr de 2009
eu nasci em santa catarina há quase vinte e dois anos atrás. meu pai trabalhava numa multinacional britânica. minha mãe era dona de casa. e o meu irmão passava o dia lendo gibi. a gente vivia em uma casa que demorou um bom tempo pra ser levantada, numa ruazinha feita de brita. como o meu pai ficava fora o dia inteiro trabalhando e minha mãe cuidava dos afazeres do lar, desde muito cedo eu fui criado pelo meu irmão e os seus gibis (eu tinha alguns amigos imaginários também, mas isso é outra história).
eu era um moleque magrelo, as pernas meio tortas, a camisa suja e rasgada do fluminense, os pés descalços. e acreditava que, de alguma maneira, os adultos não iam muito com a minha cara. pouco importava.
no colégio eu pude descobrir que haviam meninos e haviam meninas. que as meninas eram mais recatadas, mais quietas, que eram mais puras. e que os rapazes era quase todos metidos a valentões. eu me achava diferente de todo mundo. quando a professora dava as costas para escrever no quadro, eu fugia no meio da aula pra namorar os livros na biblioteca da escola. foi lá que fiz meus melhores amigos. conheci muita gente interessante. passei pelos russos, pelos ingleses, pelos latinos, pelos brasileiros, pelos americanos. cada livro novo era um mundo novo.
com o tempo descobri a força que uma palavra tinha. e então comecei a escrever. enquanto a professora falava sobre números e cálculos e equações, eu puxava um caderno e escrevia sobre qualquer coisa. eu não me importava sobre o que fosse. só precisava de uma folha em branco e de uma caneta. o resto vinha sozinho.
mais tarde conheci truman capote, que me apresentou ao gay talese, que me levou a lillian ross, que era amiga do tom wolf, e todo aquele pessoal. veio o bukowski. veio o fante. veio o nelson rodrigues. vieram os fernandos. a clarice. o kerouac. o gabriel garcía. e eu conheci muita gente, e achava que tinha um pouquinho de cada um deles quando sentava pra escrever sobre qualquer coisa.
e havia a música. os meus ouvidos eram guiados por dylan, beatles, sinatra, dave matthews, e todos aqueles cubanos malucos e aqueles negões americanos e os tupiniquins e os africanos e os britânicos e um monte de gente de tudo o quanto é canto. aprendi a tocar violão. me apresentei em alguns lugares. toquei com algumas pessoas. nada muito sério.
depois de um tempo mantive uma vida social. fui líder de classe, presidente de grêmio, professor de teatro, diretor de jornal escolar, organizador de festas.
eu era um rapaz tímido, envergonhado, não gostava de falar sobre sexo ou sobre beijo na boca ou sobre qualquer intimidade com as outras garotas. eu havia acabado de completar dezessete anos, tinha um trilhão de cravos e espinhas na cara e pesava um pouco mais de 50 kg, quando conheci a minha primeira namorada. a millana era uma garota magrela de quinze anos, usava roupas largas, piercing, fazia dança de rua, karatê, judô, capoeira, natação, jogava bola. a gente se divertia quando tava um perto do outro. de alguma maneira ela se interessava pelo meu universo e eu encontrava nela uma pureza que já não encontrava mais nas outras garotas. a gente permaneceu assim por algum tempo. e assim os dias foram se passando, e eu li mais alguns livros e ouvi outras tantas canções, chorei com alguns filmes, comemorei gols inesquecíveis do fluminense, conheci lugares, comprei coisas, e a millana sempre esteve do meu lado com suas manias e o seu jeito carinhoso e divertido.
depois de um tempo a gente decidiu mudar de cidade e fomos pra são paulo. o começo foi muito difícil. a gente não conhecia quase ninguém. não havia ruas, lugares, rostos conhecidos. não havia deja vu. eu queria cursar jornalismo e aprender com os mestres a escrever e publicar coisas. ela queria fazer arquiterura. com o tempo a gente foi se afastando um do outro, e o amor foi encolhendo, encolhendo, e a gente se machucava e falava coisas e brigava. e então a gente terminou. eu tinha pela frente a solidão, alguns monstros que insistiam em me fazer companhia, muita coisa pra escrever, alguns livros deixados de lado que deveriam ser lidos e uma cidade inteira com pessoas que te olhavam na cara e não te diziam muita coisa.
e aqui estou.
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Caminho

| 27 de abr de 2009
confundo momentos de euforia com momentos de tristeza. sinto como se tivesse cometido suicídio há algum tempo, mas meu corpo insiste em aparecer em frente ao espelho. ando pelas ruas procurando alguém que possa me dizer alguma coisa, alguém interessante que me dê algum sentido. ontem a noite caminhei na avenida paulista. descobri que existem mulheres que te olham nos olhos e mulheres que te ignoram, que uma mulher bonita gosta da companhia de uma mulher feia e que as loiras caminham diferente das morenas. descobri que existem mulheres saindo aos torrões de cada canto da cidade. eu poderia dizer que são como baratas - embora não seja uma boa expressão para defini-las. descobri que algumas mulheres quando caminham fazem o universo caminhar mais devagar. os homens são todos repugnantes, com seus corpos desproporcionais e suas barbas e suas carecas e suas barrigas e suas maneiras estúpidas de lidar com as outras pessoas. estou farto deles!
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São Paulo 3x4

| 26 de abr de 2009
São Paulo é a maior cidade do Hemisfério Sul. 10.990.249 pessoas vivem em mais de 3.039.104 residências, espalhadas pelos 2.000 bairros de toda cidade. 11% dessa população vive em favelas. 5% não sabe ler nem escrever. 12% não tem acesso à rede de esgoto. 10.394 são moradores de rua. E 1 milhão vive abaixo da linha de pobreza. Apesar disso, a capital paulista é a 19ª cidade mais rica do mundo e a 25ª mais cara. 60% de todos os milionários do país residem em São Paulo. A cidade representa 12,26% de todo PIB do Brasil.
A capital paulista possui 6 milhões de automóveis que circulam os 15.600 km de ruas e atravessam os 5.500 cruzamentos com semáforo todos os dias da semana. Tem a terceira maior frota de táxis da América Latina - são mais de 30 mil. E a segunda maior frota de helicópteros, com 210 helipontos espalhados pela cidade. 66 mil pessoas passam diariamente pela Rodoviária do Tietê, a maior da América Latina. O metrô de São Paulo transporta 3 milhões de pessoas todos os dias, com 117 trens em mais de 62 km de extensão nas 4 linhas do sistema. Os 110 trens disponíveis pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) realizam 1.688 viagens por dia, nas seis linhas do sistema, atendendo 22 municípios da região metropolitana. São 15.000 ônibus circulando pelas 984 linhas da cidade. A linha de ônibus mais longa é a 3310, saindo do Terminal Amaral Gurgel até Cidade Tiradentes; percorrendo 103 km.
Há 125.000 ruas na região metropolitana de São Paulo. 4.408 praças. 400 monumentos em vias públicas. 205 hospitais, dentre os quais o Hospital Albert Einstein, o mais avançado de nosso continente. São 530 mil postes de iluminação. 1500 agências de bancos nacionais e internacionais. 104 mil orelhões.
A cidade de São Paulo possui 240 mil estabelecimentos comerciais. São 12.500 restaurantes e 15.000 bares. 70 shopping centers que recebem 30 milhões de pessoas por mês. 50 mil salões de beleza. 5.000 pizzarias que produzem 1 milhão de pizzas por dia. As padarias de São Paulo produzem 7.200 pães por minuto. A Rua Vinte e Cinco de Março, maior comércio popular da América Latina, recebe meio milhão de pessoas todos os dias. O Bairro Bom Retiro produz 55% de toda moda feminina nacional. E o Mercado Municipal movimenta 350 toneladas de alimentos por dia. A cada segundo são realizadas 10 compras através de cartão de crédito e débito na cidade de São Paulo.
A Rua Oscar Freire está entre as 8 mais luxuosas do mundo, e atende os 30.000 milionários que residem em São Paulo. No bairro do Itaim existe uma oficina especializada somente em Ferraris. A cidade é a maior realizadora de eventos da América Latina, e a 18ª do mundo, com 70 mil eventos realizados por ano. Existem 120 Teatros e Casas de Show, 208 cinemas, 71 museus e 39 centros culturais em São Paulo. São 100 peças produzidas por semana na capital paulista; 4.800 por ano. A Pinacoteca do Estado abriga 4.000 obras de artistas nacionais. E o Museu do Ipiranga reúne mais de 125 mil objetos desde a época imperial. São Paulo é responsável por 28% da produção científica nacional e registra anualmente 230 mil matrículas de alunos em Universidades. São 2.725 estabelecimentos de Ensino Fundamental. 2.998 de unidades pré-escolares. 1.199 escolas de Ensino Médio. E 146 instituições de Ensino Superior. 68,11% dos paulistanos são católicos. 15,94% são evangélicos. 2,75% são espíritas. 0,65% são budistas. 0,36% são judeus. E 8,97% não possuem religião.
São Paulo é uma cidade formada por nordestinos, italianos, japoneses, coreanos, espanhóis, libaneses e portugueses. A maior parte do fluxo migratório vem de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia e norte de Minas Gerais. 68% dos paulistanos são brancos, 25% são pardos, 5,1% são negros, 2% são amarelos e 0,2% são indígenas.
São Paulo é uma cidade de opções. De pessoas que andam apressadas pelas ruas. De indigestos que tomam banho de sol nas praças públicas. De crianças desdentadas e mães gordas que se equilibram no vai-e-vem dos ônibus. De feirantes, cobradores, motoqueiros, compradores de ouro, garçons, putas, marginais e poetas. O centro velho de São Paulo e as regiões das marginais fedem o cheiro acre dos rios, do suor dos camelôs, dos banheiros públicos, da comida estragada, das construções abandonadas. São Paulo é uma cidade de desconhecidos, de corações solitários na multidão, de gente com cara rachada que anda de sombrinha debaixo do sol.
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"O Bluebird", por Charles Bukowski

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em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas do mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite às vezes
quando todos estão dormindo.
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso pacto secreto
e é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?
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A Revolução Musical

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a primeira vez que ouvi esse cara eu tava dentro de um carro. e tudo parecia bem devagar - tipo slow motion, saca? as pessoas na calçada caminhavam sem pressa, sem direção. não havia buzinas, carros desgovernados, sirene de ambulância. nada. eu poderia apostar que, pelo menos naquele instante, o mundo estava em um silêncio absoluto, se não fosse pela música contagiante que tocava no rádio. se não fosse por k-os.
é. isso mesmo. o céu parecia se rasgar lá no alto graças a essas três letrinhas que parecem ter saído de alguma nave intergalática de jornada nas estrelas e que iriam revolucionar a minha maneira de enxergar a música.
k-os é um rapper canadense que resgatou tudo aquilo que já havia sido feito na black music - do soul ao r&b -, bateu num liquidificador, acrescentou seus próprios ingredientes e saiu com seu microfone pelo mundo afora. seus discos são, a meu ponto de vista, as maiores realizações da cultura pop dos últimos anos, e poderia dizer que k-os está para a black music, assim como beethoven esteve para a música clássica e os beatles estiveram para o rock n'roll.
seu visual personifica a nova imagem da cultura de rua. sem o esteriótipo da periferia norte-americana. sem carrões importados. sem mulheres rebolando. sem calças largas. sem exageros. k-os dignifica o hip-hop.
suas músicas são recheadas com violinos, pianos, bongôs, pickup's, vocais, saxofones e seguem a fórmula sagrada do pop - um ritmo envolvente, refrões que ficam marcados e solos curtos.
nesse exato instante a revolução musical está acontecendo em algum lugar do mundo. a cada vez que k-os tocar num player, a cada vez que um disco seu for ouvido pela primeira vez, sua música se transformará numa grandiosa epopéia. uma viagem para o universo musical, dessas que rasgam o céu lá no alto, e deixam o tempo mais devagar, parecendo slow motion.
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Autópsia

| 25 de abr de 2009
eu tenho um metro e setenta e nove, sessenta quilos, vinte e um anos, alguns meses e poucos dias, cem bilhões de neuronios, cem mil fios de cabelo, duzentos e seis ossos, seicentos e trinta e nove músculos, trinta e tres vértebras, quarenta e seis cromossomos, noventa e seis mil e quinhentos quilometros de veias e artérias, trinta e dois dentes, duzentos cílios, cinquenta trilhões de células, um quilo e quatrocentas gramas de cérebro, oito quilos e trezentas e vinte gramas de pele, olhos castanhos, cabelos castanhos. produzo um litro de saliva por dia, mil espermatozóides por segundo.
inspiro seis litros de ar por minuto. cem mil batidas cardiovasculares por dia, tres milhões por mes, trinta e sete milhoes por ano. percebo seis mil, oitocentos e cinqueta cheiros diferentes. pisco meus olhos vinte e cinco vezes por minuto.
tenho noventa e tres perguntas sem respostas. cinco segredos. um amigo imaginário. tres livros autografados pelo fernando sabino.
um cd de chorinho só com música dos beatles. uma guitarra, dois violões, uma flauta doce, uma flauta chilena, duas gaitas de boca, um bongô, um violino. uma cicatriz com sete pontos no pulso direito. um dvd do marvin gaye com o áudio mono original. dezessete teorias conspiratórias.
quero me tornar presidente. viajar pelo mundo. ganhar um milhão no show do milhão e gastar todo o dinheiro apostando no baú da felicidade. quero visitar o túmulo do kerouac, pra criar coragem e um dia, quem sabe, fugir de casa também. quero gritar um milhão de vezes “é campeão” para o fluminense. escrever um livro de memórias. plantar uma árvore. derrubar a árvore e fazer uma cadeira. sentar na cadeira e esperar o tempo passar. quero fazer um filme. beijar a mão do papa. me casar. ter filhos. um cão. uma tv gigante. ter uma história pra contar.