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NÃO

| 30 de mai de 2009
NÃO É A ÚNICA PALAVRA QUE EU POSSO ESPERAR DA BOCA DAS OUTRAS PESSOAS. UM NÃO DADO COM VONTADE. INDECENTE. MAL CRIADO. ESTÚPIDO. UM NÃO DESPUDORADO QUE FAZ A LÍNGUA CHICOTEAR O CÉU DA BOCA. QUE FAZ TREMER OS DENTES. QUE DÓI QUANDO CHEGA SECO NO OUVIDO.
ANDO PELAS RUAS E VEJO GAROTAS ANDANDO POR TUDO O QUANTO É CANTO, COM OS SEUS VESTIDOS E OS SEUS CABELOS LONGOS E OS SEUS PERFUMES E TODAS AQUELAS COISAS QUE - BEM, VOCÊ SABE -, AS GAROTAS CAMINHAM DE UM LADO PRO OUTRO, PARECEM CAMINHAR EM CÍRCULOS, E A MINHA PRESENÇA É FACILMENTE IGNORADA. AO MESMO TEMPO EU ME SINTO COMO SE NUNCA HOUVESSE CONHECIDO ALGUÉM QUE TIVESSE LEVADO PORRADA NA CARA (E NÃO ME LEMBRO SE FOI O FERNANDO PESSOA OU O BUKOWSKI QUEM DISSE ISSO). TODOS OS OUTROS RAPAZES DA MINHA IDADE DESFILAM EM SEUS CARROS POSSANTES, E SEUS CABELOS LAMBIDOS, E SEUS ÓCULOS DE SOL EM DIAS DE CHUVA, E TODAS AQUELAS COISAS CAFONAS QUE ATRAEM AS MULHERES. TODOS OS OUTROS RAPAZES DA MINHA IDADE SÃO UNÂNIMES. SORRIEM E COSPEM HORMÔNIOS QUANDO FALAM. QUALQUER PALAVRA BOBA VIRA POESIA NA BOCA DELES (E NÃO VENHAM ME FALAR DE MÁRIO QUINTANA). AS MULHERES RIEM DE QUALQUER COISA E EXPELEM AQUELE CHEIRO DE FÊMEA NO CIO. E DEPOIS DE UM TEMPO CASAM E ENGORDAM E CRIAM FILHOS QUE TIRAM NOTA BAIXA NA ESCOLA. O PROCESSO É SEMPRE O MESMO. EU VEJO SEIS BILHÕES DE SERES HUMANOS CAMINHANDO PELAS RUAS. EU DISSE - SEIS BILHÕES. E AS VEZES EU SÓ QUERIA ENCONTRAR ALGUÉM INTERESSANTE QUE PUDESSE SALVAR O MEU DIA. ALGUÉM QUE ME DISSESSE ALGUMA COISA QUE VALESSE À PENA. QUE NÃO FOSSE TÃO ÓBVIO. ALGUÉM - QUALQUER UM - QUE PUDESSE SE INTERESSAR UM POUCO PELO MEU MUNDINHO E ME AJUDASSE A ENCONTRAR ALGUMAS RESPOSTAS.
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REAPRESENTAÇÃO

| 28 de mai de 2009
olá. não não. esquece o olá. eu poderia começar com uma frase impactante. dessas ditas por um grande filósofo que colocam no início dos livros. uma frase pronta. que fale sobre a vida, que tenha palavras bonitas. algo com rima. com graça. o bukowski, por exemplo, dizia que as pessoas que anotam seus pensamentos são umas cretinas. concordo. eu poderia colocar algumas vírgulas, inverter algumas palavras, e dizer que a frase é minha, só pra impressionar um pouco.

"são cretinas, as pessoas que anotam seus pensamentos." (rodrigo da silva)

depois eu poderia me apresentar. dizer que eu sou uma jovem promessa. e que no verão passado consegui terminar de ler ulisses, de james joyce, em oito dias. grande livro! ainda que eu mal tenha chego à página quatorze sem entender bulhufas, contando com capa, frontispício, folhas em branco, sumário, epígrafe e aquela apresentação do antônio houaiss. pouco importa.
narraria os grandes acontecimentos de minha vida. que tive uma educação elitista, ao som de Chopin, Beethoven, Bach. que li os clássicos desde muito cedo. que sou apreciador de um bom vinho. e frequento grupos de discussão de artes plásticas. jogo tênis. pratico corrida de cavalos. escrevo poesia con-cre-tis-ta. embora viva recluso em meu quarto, lendo literatura marginal. ouvindo black music. gastando meu tempo em frente à tv assistindo documentários sobre o reino animal. arriscando hora ou outra palavras dilaceradas. e que tenho orkut. conta de email grátis. e que apareço offline no msn.
terminaria prometendo grandes feitos a seguir, com acontecimentos surpreendentes, histórias bem narradas e garantia de entretenimento e diversão. mesmo que não saiba ao certo com que cabo levo minha vida, e se meu cotidiano é digno de duas ou três palavras que valham a pena.
é isso.
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4º Jornalirismo Debate: Jornalismo Literário

| 19 de mai de 2009
O Jornalismo Literário será tema de um debate promovido pelo Jornalirismo , em parceria com o Senac SP, na próxima terça-feira (26/05).
O "4º Jornalirismo Debate: Jornalismo Literário", contará com as presenças de Pedro Bial (repórter e apresentador da Rede Globo de Televisão), Eliane Brum (repórter especial da revista Época, vencedora dos prêmios Esso e Vladimir Herzog), Daniel Piza (editor-executivo e colunista de cultura do jornal O Estado de S.Paulo), Sérgio Vilas Boas (repórter e professor universitário, vinculado à Academia Brasileira de Jornalismo Literário) e Allan da Rosa (poeta e dramaturgo, organizador do selo Edições Toró - Movimento de Literatura Periférica e Comunicação Independente).
O evento ocorrerá no Senac Lapa Scipião (Rua Scipião, 67, Lapa, Zona Oeste da capital paulista), das 19h às 22h30. O Senac aproveitará a ocasião para lançar o Curso de Jornalismo Literário.
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eu tenho saudade

| 16 de mai de 2009
eu tenho saudade. saudade de quando era menino e andava livre por aí sem me preocupar com contas vencidas, nem com roupas sujas jogadas sobre a cama ou sobre o que inventar pra comer no almoço. eu tenho saudade de quando acreditava que o dinheiro fosse apenas um pedaço de papel. do tempo em que ainda não sabia nada sobre política ou filosofia ou literatura ou sobre como os homens são uns vampiros de merda. saudade desse tempo em que passava assistindo desenho animado na televisão. sem compromissos. sem despertadores. sem mulheres trancafiadas na cabeça atrapalhando as minhas noites de sono.
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Palavra Dilacerada

| 15 de mai de 2009
"Quando me sento para escrever, desde menino até hoje, sou um pricipiante. Vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo. E que só eu posso me dizer, mais ninguém. Por isso às vezes passo horas, dias à procura da palavra adequada ou do encadeamento de uma frase. Não quero repetir coisas já ditas, inclusive por mim, o que infelizmente às vezes acontece. Para isso tenho de desaprender o que aprendi, me desvencilhar dos preconceitos, me livrar das hipocrisias, das idéias que me foram impostas, de tudo enfim que possa tolher a minha liberdade de expressão.
O que há de mais árduo para mim, ao escrever, é a busca da expressão adequada, são as exigências da propriedade vocabular. Há mil maneiras de dizer uma coisa e só uma é perfeita. Para descobri-la, pode-se levar a vida inteira. Acredito que escrever seja, basicamente, cortar. Cortar o supérfluo. Eliminar repetições, ecos, rimas, cacófatos, redundâncias, lugares-comuns. Mas principalmente o excesso: como disse Unamuno (ou Otto Lara Resende, não me lembro), é preciso não duvidar da inteligência do leitor. Tenho a impressão de que, ou bem este me valoriza muito, ou passaria a encarar a minha literatura com o maior desprezo, se soubesse o que ela me custa: aquilo que ele levou alguns minutos para ler levei dias, meses, às vezes anos para escrever. Tenho dificuldade para redigir até um cartão de agradecimento ou um telegrama de pêsames.
Num levantamento da minha vida literária, vejo nela que não tenho feito outra coisa senão me revelar, me expor, contar aquilo que vivi, testemunhei, pensei, aconteceu e chegou ao meu conhecimento - sempre através da mais torturante maneira de recriar a realidade. Deus sabe, por exemplo, o que me custa, na elaboração de despretencioso esboço autobiográfico como este, não entrar de cabeça pela ficção adentro.
A literatura é também uma paixão. Sendo ato de criação, é um ato de amor. Como ato de amor, teria de ser praticado pelo menos a dois. E o escritor de ficção é um homem sozinho diante do papel em branco, tentando exorcizar seus demônios: o demônio da solidão, o da insatisfação, da procura de alguma coisa que não sabe o que seja. Como quem tenta recuperar uma experiência sonhada, ou vivida numa vida anterior. É um ato que só não se transforma em vício solitário porque através da expressão literária, o escritor busca estabelecer a ligação com o seu semelhante, reintegrando-se na comunidade a que pertence." (Fernando Sabino)

PS: Texto extraído de "O Tabuleiro de Damas", livro que ganhei de presente de Fernando Sabino quando eu ainda era criança e nos escrevíamos por carta.
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MEMÓRIAS DE INFÂNCIA

| 13 de mai de 2009
quando eu era pequeno minha mãe sempre fazia festa de aniversário. tinha bolo de chocolate. coca cola. guaraná. torta de maçã. torta salgada. pudim. coxinha. risóles. canudinho de maionese. o meu pai pegava a mesa do vizinho emprestada, a gente colocava ela na garagem, minha mãe alinhava uma toalha vermelha de bolinhas brancas e entupia a mesa de comida. perto das sete horas a minha casa ficava cheia e todo mundo olhava pra mim com uns olhinhos brilhando e me parabenizavam e diziam todas aquelas coisas que as pessoas dizem num dia de aniversário. minha família se reunia ao redor da mesa e cantava "parabéns pra você" e eu me sentia assustado e envergonhado. depois o meu pai, a minha mãe e a minha vó faziam uma oração, e algumas pessoas rezavam também e outras preferiam ficar em silêncio. a gente comia e sempre sobrava alguma coisa. e quando as minhas tias iam embora minha mãe separava pra elas um pedaço de bolo e alguns salgadinhos, embrulhava num guardanapo e ainda assim sobrava um pouco pra gente no dia seguinte.
eu sempre ganhava muitos presentes. tinha bola de futebol. joguinho de tabuleiro. bonecos. carrinhos. cuecas, camisas, meias, bermudas (eu normalmente odiava ganhar roupa). e uma série de coisas embrulhadas naqueles sacos vermelhos que eu adorava arrancar sem dó nem piedade. algumas pessoas me davam uns presentes mais ou menos e ficavam envergonhadas e diziam que era só uma lembrancinha. tinha aquelas que não davam nada e ficavam prometendo pro ano que vem e outras que me davam dinheiro.
o dia em que eu ganhei uma bicicleta da calói, no meu aniversário de sete anos, foi um dos mais felizes da minha vida. eu adorava a sensação do vento batendo na cara quando pedalava, e além do mais todos os meus amigos tinham bicicletas e andavam pra lá e pra cá e se sentiam mais livres que eu. eu poderia dizer que aquele momento, naquela manhã quando o meu pai tirou de dentro do carro uma bicicleta embrulhada, eu estava atingindo o ápice da minha infância.
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FLIP 09

| 12 de mai de 2009
gay talese, um dos expoentes do new journalism, virá ao brasil participar da "festa literária internacional de paraty" (flip), que ocorrerá entre os dias 1º e 5 de julho, no litoral sul fluminense. esse senhor de 77 anos (foto), que nasceu na américa embalada pelo jazz e pelo blues, filho de imigrantes italianos, revolucionou o jornalismo ao misturar notícia com literatura e, pessoalmente, é uma das minhas maiores referências. talese aproveitará a ocasião para lançar "vida de escritor", publicado pela companhia das letras.
a FLIP 09, que homenageará manuel bandeira, contará ainda com as presenças dos brasileiros chico buarque de hollanda, milton hatoum e cristovão tezza, do português antónio lobo antunes (vencedor do prêmio camões 2007), da irlandesa anne enright (vencedora dos prêmio man booker prize e irish novel of the year) e do afegão atiq rahimi (vencedor do goncourt 2008, prêmio referência da língua francesa).
acompanhe a programação da FLIP 09 clicando aqui.
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Ausência, por Alexandre Magno

| 9 de mai de 2009
não é o poeta que fala por mim,
ou a poesia,
não fala por mim o gramático ou o crítico
não fala por mim o aparelho sobre a estante
que ecoa
por toda a casa
vazia
não fala por mim o tempo que vivo
a história que me toma pela mão
e me diz
não
não fala por mim a ilusão que houver
não é o solitário que fala por mim,
meu irmão,
e não fala por mim a mulher que acaba de abrir a janela
a espera dele que se embriaga no mais puro esquecimento
e o palhaço prestes a adentrar o picadeiro
ou
o pobre
homem
que atravessa a rua com o jornal
amassado
carregado em tintas
do passado
não fala por mim meu avô que morreu
meu amor que me esqueceu
a alegria que não me quis
não fala por mim o meu povo infeliz
que tão pouco tem para dizer com todas as letras
aquilo que quase não sabe
(mas vive, e como vive)
não é exatamente o inconsolável que fala por mim
nem o irremediável
nem o intratável
não fala por mim o pesadelo da noite
nem o sonho
o psicanalista não fala por mim
nem o psiquiatra com os seus remédios
ou o filósofo com os seus sistemas
e nem mesmo o louco com suas desrazões
não fala por mim tu que mal me conheces,
(porque isso te serviria de algum consolo?)
não fala por mim o pensamento de minha mãe
e de meu pai
que ainda vivos
podem pensar em mim
e no que faço eu
enquanto estou envelhecendo
não fala por mim o erro que cometi
o acerto que por lutas mereci
nem a mais recente ilusão adquirida
nos último deslumbres
da vida

o que fala por mim
é a minha ausência.

(Bêbado, como sempre e com muito orgulho, 03:30 de fria manhã).
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MEMÓRIAS DE INFÂNCIA

| 7 de mai de 2009
o meu irmão alexandre sempre foi o meu ponto de referência. quando eu era criança e ele vinha de florianópolis pra passar o final de semana em casa, eu virava a noite contando as horas e passava a manhã seguinte grudado no portão, olhando de um lado pro outro. quando ele chegava, com uma mochila nas costas cheia de novidades, eu sentia um efeito ácido que borbulhava na altura do pâncreas e podia provar, pelo menos naquele instante, que o amor era uma reação química. o alexandre era o meu herói e o tempo perto dele passava mais rápido.
eu achava que a maioria das pessoas não diziam muita coisa e estavam ocupadas demais vivendo suas vidinhas, praticando suas rotinas. através do que o meu irmão tinha pra me dizer eu aprendia e conhecia e vibrava com um monte de coisas interessantes. eu era um menino diante de um velho contador de histórias. e o meu irmão parecia um mago com suas músicas e seus filmes e seus livros e todas as coisas que só ele sabia e que só ele podia me ensinar.
minha família sempre teve orgulho dele por ter largado tudo pra estudar em outra cidade. por ter enfrentado os monstros que enfrentou - em batalhas que venceu, em sua maioria, sozinho dentro de um quartinho rabiscado. porque ele nunca deixou de ser o neto do vô cebola e nem tinha medo em ser quem era, com quem quer que fosse.
o meu irmão vinha e a família se reunia e parecia que, pelo menos por aqueles instantes, tudo era mais fácil. a gente ria. brigava e fazia as pazes. comia cachorro quente. tomava cerveja. coca cola. falava sobre futebol. falava sobre mulheres. jogava dominó e viajava pra praia. cada um compartilhava com o outro um pedacinho de si mesmo. a gente podia dizer que era feliz quando tava perto dele.
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FILMES PARA VER ANTES DE MORRER

| 6 de mai de 2009
SEGUNDA-FEIRA AO SOL
(Los lunes al sol - Espanha) de Fernando Léon de Aranoa, 2002. IMDB - 7,7
com Javier Bardem, Luis Tosar, José Ángel Egido, Nieve de Medina, Enrique Villén

- Recebeu uma indicação ao European Film Awards de Melhor Ator (Javier Bardem).
- Ganhou 5 prêmios no Goya, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Javier Bardem), Melhor Revelação Masculina (José Ángel Egido) e Melhor Ator Coadjuvante (Luis Tosar). Recebeu ainda outras 3 indicações, nas seguintes categorias: Melhor Edição, Melhor Atriz Revelação (Nieve de Medina) e Melhor Roteiro Original.
- Ganhou 3 Kikitos de Ouro no Festival de Gramado, nas seguintes categorias: Melhor Filme - Mostra Latina, Melhor Diretor - Mostra Latina e Melhor Ator - Mostra Latina (Javier Bardem). Ganhou ainda o Prêmio da Crítica - Mostra Latina.

nunca fui comunista. vim de uma educação política social democrata e sempre achei a esquerda burra. ando pelas ruas e vejo os jovens com camisas e bonés e agasalhos e tatuagens de che guevara, cuba, lenin, fidel castro e outros garotos propaganda do comunismo, e acho que se transformaram num símbolo de marketing. acho que a imagem desse pessoal todo é altamente vendável estampada em qualquer coisa.
de qualquer maneira "segunda-feira ao sol", filme dirigido por fernando léon de aranoa e que tem javier bardem em uma das melhores atuações de sua carreira, me fez repensar sobre a cultura do capitalismo.
um grupo de amigos, todos ex-operários de uma fábrica naval ao norte da espanha, se reunem em um pequeno bar aonde compartilham suas frustrações e esperanças. o bar se transforma na casa de homens de meia idade que, ao terem perdido seus empregos, se sentem deslocados em frente a um universo sem perspectivas. a excência do homem, suas funções e habilidades são tratadas com angústia e humor durante as duas horas de película.
santa, lino e josé, sob o sol de segunda-feira, começam a semana buscando um sentido à vida.
santa, personagem de javier bardem, é um homem sem dinheiro, solitário e fantasioso. perseguido por uma ação judicial que lhe condena a pagar US$ 40,00 por quebrar um poste de iluminação durante um protesto, ele encara a vida com irreverência e picardia. seu carisma quixotesco invade a tela desde o primeiro instante.
lino é um caçador de entrevistas de emprego. ao se deparar no jornal com um anúncio de trabalho e os requisitos básicos de contratação - ter boa aparência, limite de idade, carro próprio e conhecimentos em informática - luta por um processo de reconstrução. tinge o cabelo, inicia aulas de inclusão digital, usa as roupas do filho pra aparecer mais jovem. caminha em contramão.
josé se depara com conflitos conjugais. a partir do momento em que deixa de ser o provedor da família passando a conviver com a pressão de sua mulher, que trabalha em uma fábrica de atum , passa a ter um dilema - conseguir um empréstimo no banco de US$ 8.000 para montar um pequeno negócio, e fugir do perverso sistema de agências de emprego que anulam homens de meia idade.
"segunda-feira ao sol" é um filme que trata da natureza humana.
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Vândalos

| 4 de mai de 2009
as ruas de são paulo foram tomadas por bárbaros. eu os vejo andando de um lado pro outro com seus cabelos coloridos, suas roupas largas, seus piercings, suas tatuagens. os bárbaros caminham pelas ruas e criam poças de urina pelas calçadas e defecam e vomitam e quebram as placas de sinalização e brigam. eu vejo bárbaros que passam as mãos nas mulheres e cospem sobre as comidas e pulam uns sobre os outros. e apesar de reunirem tantos clichês e serem tão parecidos, esses escrotos acreditam ser alternativos. punks. skinheads. góticos. emos. mcs. gays. mauricinhos. estou cansado dessa gente estranha e suas músicas de merda.
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Do Brega ao Rock

| 2 de mai de 2009
O final de semana será de Virada Cultural em São Paulo. Mais de 800 atrações se apresentarão pelos 150 palcos espalhados pela cidade. Durante as 24 horas de programação será esperado um público de 4 milhões de pessoas. Inspirada pela 'Nuit Blanche', que ocorre anualmente em Paris, a Virada Cultural foi criada em 2005 pela Prefeitura de São Paulo e funciona como uma verdadeira maratona cultural que mobiliza toda cidade. Atrações musicais - do brega ao rock -, espetáculos de teatro, dança e circo invadem as ruas da capital paulista e aproximam o público das mais distintas manifestações de arte.
A programação da Virada Cultural você encontra clicando aqui.
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"Fama e Anonimato", por Gay Talese

| 1 de mai de 2009
Os 10 mil motoristas de ônibus de Nova York enfrentam todo dia o pior trânsito do mundo, ao mesmo tempo que são insultados por velhinhas, enganados por estudantes, fechados por táxis e obstruídos por caminhões; tudo isso enquanto dirigem com uma mão e dão o troco com a outra, entregam bilhetes de baldeação, respondem perguntas, se apressam para pegar o sinal verde, procuram cumprir o horário, evitam os buracos da companhia de eletricidade, pedem aos passageiros que se dirijam para o fundo do ônibus, ouvindo o contínuo tilintar da campanhia de parar e sofrendo de dor nas costas, úlceras, hemorróidas ou um desejo quase incontrolável de enfiar o ônibus num muro de pedra e sair andando. Apesar de todo esse tormento e labuta, o motorista de ônibus de Nova York continua a ser, em grande medida, uma pessoa anônima que passa a vida mostrando apenas metade do rosto no retrovisor. Ele nunca terá o prestígio dos motoristas dos vistosos Greyhound, que usam quepe e disparam feito pilotos, ou dos motoristas de ônibus de subúrbio, que são chamados pelo nome pelos passageiros e ganham presentes no Natal; ou ainda dos motoristas de ônibus de excursão, que levam as pessoas a piquiniques e em geral são convidados a participar; tampouco dos motoristas de ônibus escolares, que eventualmente podem bater num passageiro barulhento e não sofrer nenhuma punição, se o departamento de Educação local não for progressista demais. O motorista de ônibus de Nova York é subestimado. Quando levanta os olhos para o retrovisor, ele ve a multidão dos que pegam quinze centavos e o ignoram. Ele os ve olhando através da janela, olhando para os próprios pés ou tentando ler o jornal de outras pessoas. Ele ve um boy desgrenhado apertando os olhos para ler um envelope pardo, uma senhora gorda segurando a sacola de compras enquanto disputa com um homem o único lugar vazio no ônibus. Ve passageiros de pé, pendurados nas alças como quartos de boi no açougue, e os odeia porque se recusam a sair do lugar quando ele pede pela enésima vez: “Um passinho à frente, por favor, tem bastante lugar no fundo do ônibus.” Os passageiros o ignoram, e continuarão a ignorá-lo até o momento em que ele perturbe a paz deles - ao dar uma freada brusca, ao deixar de responder uma pergunta ou de parar num ponto quando eles tocam o sinal. Dia após dia os motoristas padecem dessa rotina interminável, sabendo o que esperar - e quando - dos 3 milhões de nova-iorquinos que andam de ônibus a cada dia da semana. Às seis da manhã, por exemplo, os motoristas de ônibus pegam telefonistas, enfermeiras, empregradas domésticas, empregados de hotel; depois deles, às sete horas, é a vez dos comerciários, estivadores, ascensoristas e uma infinidade de outros leitores da imprensa marrom que entram no serviço antes das oito. Durante essas horas ouve-se o ruído ininterrupto de moedas tilintando dentro da caixinha de dinheiro, porque esses passageiros das primeiras horas, que também pertencem à classe trabalhadora, procuram facilitar a vida do motorista trazendo a quantia exata da tarifa. O trabalho do motorista de ônibus só começa a ficar desagradável às oito da manhã, quando os estudantes, livros debaixo do braço, começam a entrar, abrindo caminho a cotoveladas. Às nove da manhã, o ônibus fica repleto de secretárias, de recepcionistas e de perfume. Às dez, as secretárias executivas (que trabalharão até as seis) e funcionários de escritórios que ainda não se podem dar ao luxo de andar de táxi, e também as primeiras vagas da maior bête noire dos motoristas de ônibus - as senhoras que vão às compras.”A senhora que vai às compras pode estar com a bolsa tilintando, cheia de moedas, mas me dá uma nota de cinco dólares”, diz Barney O’Leary, que começou como motorneiro em Nova York, há 34 anos, e parece ter acabado de sair de O Delator. “Ou então ela está com uma amiga e diz: ‘Pode deixar, Sophie, eu tenho’. Aí ela põe a luva na boca e começa a procurar moedas - enquanto todo mundo espera do lado de fora, na chuva.” “Quando chego num ponto cheio de gente”, continua ele, “a primeira fila é invariavelmente uma mulher carregada de compras. Quando entra no ônibus ela põe os embrulhos no chão, fica remechendo na bolsa e, depois que lhe dou o troco, me pede um bilhete de baldeação de três centavos. Assim, tenho que arranjar troco pra ela duas vezes! Claro que quando pede o bilhete de transferência ela sussurra, a gente mal pode ouvir, mas quando ela xinga, o ônibus inteiro ouve.”"Essas mulheres são tão más”, acrescenta ele, “que em Nova York os homens não lhe dão mais lugares. Eles sempre se sentam no fundo do ônibus e fingem que não estão vendo as senhoras no pé do corredor. Ou então enfiam a cara em jornais, tiram um pedaço de papel do bolso e fingem estar ocupados em escrever coisas importantíssimas. Muitas vezes os homens ficam tão preocupados em manter o assento que deixam o ponto passar.” Para os motoristas que conseguem aguentar o tranco, o trabalho dá uma certa segurança e um salário médio próximo de 120 dólares por semana, incluíndo as horas extras. Os motoristas percorrem cerca de 97 quilometros durante o expediente de oito horas e arrecadam perto de cem dólares em passagens, e tem de prestar contas de cada centavo. Embora existam homens obstinados como Barney O’Leary, que conseguem passar a vida inteira insistindo para que as pessoas passem para o fundo do ônibus, outros há que dão um basta depois de dez ou quinze anos. Esses motoristas trocam de profissão e passam a trabalhar nas viações como mecânicos ou encarregados de manutenção, por exemplo, e muitos deles ficam muito satisfeitos, e até simpáticos - ali, longe da multidão enlouquecedora e do barulho da campainha, longe dos engarrafamentos e das cartas de reclamação, longe das arrogantes freguesas de lojas que, por quinze centavos, pensam poder controlar o destino de um motorista de ônibus.